Homem usa um estetoscópio para auscultar a pedra negra guardada no bolso do próprio casaco.
Abertura — o estetoscópio encontrou uma pedra no bolso.

O abismo
Negro
Vermelho das veias
Que cortam meus pulsos
O mar de viúvas
De forasteiros
A Umbra dos infiéis
Me clama
Da posta de retirar-se
A batalha de viver
A percepção de não ser nada
Para ninguém
A ausência de sentido
Sentido nu
Cru desnutrido
Frio
Muito frio
Frio que gela esta pedra
Que carrego ao peito
Desalinhado de parâmetros
Desajustado como pessoa
Perdendo todos
Perdendo tudo
Sobrando nada de nós
Nenhum recôndito covil
De estrume e pragas
Rasgado e desolado
Tão sozinho que dói
Morrer é o colírio
Do viver
Deitar-se e apagar
Pra não mais ser
Ser restos comidos da terra
Como os restos dos outros
Perdi meu ser
Perdi minhas razões
Desnutrido recôndito pútrido
O poeta pálido que perde
A regalia do amor
Rasguei meu coração em dois
Partido
Ele está ferido
E a ferida é exposta
E vou sangrar gemer
Gritar berrar
Chorar rios em lágrimas
Porque nada pode ser fácil
Porque tudo no viver
Precisa levar-nos
À estrada do morrer
Porque tanto de nada
Não há mais riso
Só escuridão

À margem

negro. vermelho.

À margem

para ninguém.

À margem
Rabisco de bolso tentando segurar uma pedra grande demais enquanto dois pontos da costura se rompem.
À margem

tão sozinho.

À margem

colírio: imagem estranha. manter.

À margem

partido.

Homem tenta costurar com linha laranja as duas metades irregulares de uma pedra negra sobre a bancada.
Fecho — a agulha descobriu a resistência da pedra.