Um bloco de gelo perde os cantos e se transforma num botão de flor fechado; uma borda de pétala é laranja.
Abertura — o gelo ensaiou primavera.

Antonio Fernandes
Houve um tempo em que o dia era claro

Rayza Paes
Era claro, branco e enfeitiçado de gelo

Antonio Fernandes
Patinava no lago e sonhava que era um pássaro

À margem

o gelo ainda permitia voo.

Rayza Paes
Mas queria a primavera, para sentir o vento doce e colocar uma flor no cabelo

Antonio Fernandes
Mas queria ser gente grande, pra ser astronauta e viajar no céu e o infinito

Rayza Paes
E poder tocar as estrelas, viajar em cometas e dançar com os mundos

Antonio Fernandes
Naquele tempo achava certo ir dum lugar ao outro correndo. Sempre.

Rayza Paes
Achava que correr era o mais perto do seu sonho de voar...

À margem

a corrida ensaiava outra altura.

Antonio Fernandes
Era a própria criança que havia dentro de mim

Rayza Paes
A mais inocente de todas elas, a criança que eu queria voltar a ser,

Antonio Fernandes
Pipa, pião, bola e tapão.

Rayza Paes
Agora só posso sonhar...

Antonio Fernandes
e seguir essa rotina inóspita, monótona, traiçoeira.

À margem

a rotina não levou a criança.

Rayza Paes
E em algum dia de primavera poder lembrar da criança que fui...

A caixa de um despertador se alonga, ganha veios de madeira e vira uma casa de brinquedo; um pequeno quadrado laranja marca a base.
Fecho — a rotina guardou uma casa.