Pessoa caminha numa pista que nasce de um casulo, atravessa uma urna e retorna ao início numa única volta laranja.
Abertura — a pista dava uma volta de oitenta anos.

Amor não é o pé da colina com o lago dourado
é sim a peça do quebra-cabeça faltante
aquela que por razão não
se encaixa
ainda que haja peça não há que encaixe
amor por si só
não é completo
tenho tentado dar amor ao mundo
e a tantos, com tanta intensidade
tenho tentado fazer tudo diferente
pra variar
e novamente o diferente não dá certo

À margem

a peça existe. o encaixe, não.

À margem

pra variar: repetiu.

pessoas mudam
amores mudam
esse quebra-cabeça é
quebrado
haja ardor no meu peito
lágrimas no rosto
ou desejo desesperado de fim
a vida é um constante caminhar agonizante às vezes
às vezes.
mas não é caminhar senão
para si mesma. Uma volta ao útero de oitenta anos
do útero da carne
ao útero da urna de pó
transformamo-nos através da destruição agonizante
de tudo que nos é arremessado e nos dói
cada vez que penso que conheço toda a dor, há dor maior
quando já tive a maior
tenho dores diferentes
a confusão mental de não saber ser de saber-se de mais nada
não ser nada
ser estado mental confuso catatônico
abestado e trouxa?
ou ser estado físico sólido, que se faz de aço
para defender um núcleo macio e fraco?
ser eu estado de vapor cortante e destrutivo?
ou me aninhar nas unhas da comodidade
ser aquático estático quase que dando de dengue?

À margem

oitenta anos fecham a volta.

À margem

estado: indeterminado.

À margem
Cubo de aço com núcleo acolchoado, uma quina transformada em vapor e outra em água parada, deixando uma seção ausente.
À margem

água parada: a metáfora já trouxe mosquito.

viver é sonhar
mas viver é fazer
viver só não é o não fazer
que o sonhar nunca se fez
tenha dó do nó que fez pó
da dor que me deixou
tão só
da ausência do sonho
quando felizes para sempre
será para sempre
o sonho que nunca se fez

À margem

dó / nó / pó: três quedas da mesma sílaba.

Pessoa à beira da cama aperta um nó que se desfaz em pó, deixando vazio o contorno de uma peça no chão.
Fecho — o nó virou pó antes de segurar o sonho.