Um despertador comum ocupa o centro de um pesado halo circular de mármore preso por suportes, sobre um banco simples; apenas uma marca do mostrador é laranja.
Abertura — a eternidade ganhou despertador.

Fôssemos Deuses,
morríamos de tédio.
Assédio da tentação
duma tarde que tem fim,
se vago minha mente
me perco, o agora
não chego ao destino
esterco de dias
vagos perdidos
deixados vazios
Fôssemos Deuses
passado, futuro,
que importa?
somos mortais
se não o agora
o que mais?
Vem viver
pra ser
algo mais.

À margem

imortalidade: reunião sem horário de término.

À margem

o destino perdeu o ônibus do agora.

À margem

o calendário fingiu que não ouviu.

À margem

alarme para amanhã: continuar mortal.

Numa ampulheta apoiada por colunas, toda a areia permanece suspensa na câmara superior; só um grão laranja ocupa o gargalo e a câmara inferior está vazia.
Fecho — o agora ficou entalado por um instante.