Paletó, cinto e sapatos permanecem alinhados em casa enquanto pegadas descalças partem sozinhas; apenas um cadarço é laranja.
Abertura — o traje ficou em ordem; as pegadas dispensaram os sapatos.

Deixei a dignidade em casa
que é pra não perder
hoje tem rua boteco balada
quero ver amanhecer

À margem

a dignidade ganhou a noite de folga.

Garçom desce cerveja
gelada
Aproveita e traz uma
cachaça

me vê uma garrafa
d'água
que é pra diluir pílulas
coloridas, douradas

À margem

a cor nomeia o que o poema deixa sem rótulo.

depois do pré
vem farra
tem luz tem gente tem
gata

Olha que morena linda
olhos castanhos
sorrisão
não sei chegar
Só observo

Ela me olha eu
olho ela
ela me quer eu
quero ela
falta-me coragem

À margem

o olhar atravessou a pista; a coragem ainda não.

ela que puxa o papo
tem atitude
fala da noite das festas
de si

vou ficando enfeitiçado

Dois toca-discos ficam separados, mas o braço do primeiro atravessa a distância e pousa com agulha laranja sobre o segundo disco.
Pausa — um braço atravessou a distância e a outra faixa começou.

essa droga bate forte,
o gosto da água é
salgado

À margem

a água muda de gosto sem entregar explicação.

vamos pra luz
vamos dançar
quero pular até
cair no chão

ela me agarra
me arranha
tira tudo de mim
parou som parou gente parou
tudo
agora sou só eu e ela

À margem
Uma abotoadura metálica transforma seu fecho numa pequena trava doméstica com pino laranja.

me puxa pela mão
me leva pra fora
sussurra no ouvido
vamos pra outro lugar?

Claro, meu bem
acabamos de começar
nessa noite sem luar
em você vou me
acabar

Mas que fogo

À margem

a última linha cabe inteira numa faísca.

Duas trilhas de pegadas convergem sob a noite e tornam-se um zíper no asfalto; o cursor laranja abre uma faixa clara fora do quadro.
Fecho — duas trilhas chegaram ao mesmo cursor; a noite abriu o asfalto.