Uma prensa sobre uma mesa produz uma tira de papel dobrada em degraus; acima dela, um capelo permanece suspenso, com uma borla laranja.
Abertura — a posição mudou enquanto o capelo ficou.

Tudo são discursos. Vai doer mais em alguns que em outros, mas a verdade é que a verdade não existe. Desde que estudei estatística na matemática básica estou sempre com um pé atrás quando alguém me fala em porcentagens, e não é pra menos: a maioria das "porcentagens", dos censos, das listas diz exatamente aquilo que quem a faz quer dizer. São tendenciosas até os ossos. Esse tipo de pensamento, essa maneira de estudar e pensar é típica dos ingleses, em seu chamado empirismo, e estão sempre a comprovar as hipóteses que têm através de números. Ela não é, de fato, de todo mal, visto que os próprios ingleses são sempre fiéis à dedução, e não à indução. Isto é: Analisam os números e chegam a uma conclusão, e não têm uma conclusão e a partir daí tentam buscar números que a sustentem.

À margem

a porcentagem também escolhe onde mirar.

O problema nisso tudo torna-se crítico quando, numa situação capitalista, os meios que divulgam tais listas estão diretamente relacionados aos meios econômicos e políticos que têm interesse nelas. Numa corrida presidencial, por exemplo, os "52% de aprovação da Dilma Rousseff" na Carta Capital são imediatamente rebatidos pelos "31% de aprovação" que ela tem na Veja. Podemos perceber que aquele que nos fala quer desesperadamente nos convencer de que ela é "boa ou má", e a partir disso fazem seu senso se encaixar à sua vontade, e não o contrário.

"Como fazer então?" A melhor maneira de se aproximar da verdade, penso eu, não podendo confiar plenamente nos dados da mídia tradicional, seria a mistura do método francês, de dedução teórica, em que se deduz a realidade mais provável através de uma análise geral dos componentes e influências que aquilo que se estuda deve ter, com um embasamento teórico crítico, expoente na Escola de Frankfurt, em que devemos lembrar de não encarar nada como "verdade universal" nem nos prender a comodismos antigos. Antes disso, devemos buscar questionar esses comodismos e ver como eles são formados, que intenções eles têm e a quem, econômica e politicamente falando, eles interessam.

Dito tudo isso, a Faculdade Milton Campos de direito teve, no último ano, a terceira colocação no Ranking da "Folha de São Paulo". Dum ano pro outro ela despencou 116 posições, e foi classificada no 119º lugar. Como se deu tudo isso? É de se questionar, até com bastante ironia, como uma faculdade que basicamente não mudou nessas quatro estações, tendo ainda os mesmos professores, a mesma estrutura, a mesma reitoria, duma hora pra outra tenha saído da posição de melhor de Minas Gerais, sendo classificada inclusive como melhor que a UFMG, para pior que algumas faculdades sem tanta tradição jurídica. (Talvez as 116 posições perdidas tenham sido causadas pela demissão do professor Jésus, ex-professor de latim e lógica formal, que tinha mais de 20 anos de casa e causou uma revolta dos alunos contra a reitoria, quem sabe?)

À margem

o prédio ficou; o degrau mudou.

Qual quadro se nos apresenta? Bom, temos hoje em São Paulo grupos econômicos que têm comprado sistematicamente universidades e expandido-as, tornando-as cada vez mais massivas, com intuito exploratório, tentando agregar o máximo de estudantes possível, principalmente através dos programas de financiamento FIES e ProUni, que têm dado a pessoas de baixa renda a oportunidade de estudar em seu primeiro curso superior. Nesse quadro, temos ainda bem comentado um tal grupo americano, atuante em São Paulo, que tem tido interesses na faculdade Milton Campos. Não é determinante, mas é de se imaginar que haja interesses, não só deste como de outros, em sabotar a visibilidade não só dessa faculdade, mas também de outras que até agora se recusaram a ser vendidas, e se mantêm na posse de seus atuais donos. O poder aquisitivo desses grupos de compra é tamanho suficiente para gerar influências até mesmo no MEC, que dirá de jornais de mídia tradicional, que não só eu mas outros viram como são tendenciosos nas manifestações de Junho, quando a Folha, ao ter num primeiro momento apoiado seus fotógrafos agredidos (e não os manifestantes) viu uma explosão de manifestos que culminou nesse apoio, e logo tratou de progressivamente voltar a deslegitimar, aos poucos dando mais visibilidade midiática ao vandalismo que ao povo nas ruas, movimento massivo dela como de outros que culminou em afogar a revolta.

Sobre um livro aberto, uma régua se enrola em espiral e um compasso assume a forma de pequenos degraus; uma dobradiça é laranja.
Pausa — o mesmo livro encontrou medidas incompatíveis.

Não, não confio na Folha, como nenhuma outra dessas mídias é confiável. Dito isso, podemos jogar o ranking no lixo e atentar para questões mais inteligíveis e menos simplistas. A conversa que entrarei agora, já adianto, não é finalista nem almeja ser. Não sou professor, nem observo a atuação das faculdades há muito tempo, tratarei apenas das impressões que tenho a respeito do tema. Nesse exercício tratarei de analisar três faculdades belo-horizontinas: UFMG, Milton Campos e PUC. A primeira e a última têm clara tradição filosófica, focada em estudos e professores acadêmicos, enquanto a do meio sempre teve uma cultura formalista, voltada a formar bons profissionais de mercado. Apenas ao ver isso já nos apresenta um problema colossal: é difícil comparar coelhos com cachorros. Quer dizer, apesar de serem ambos cursos de direito, eles têm objetivos diferentes e não é que não possam ser comparados, mas é difícil sê-lo. Os professores da UFMG são grandes expoentes intelectuais, enquanto a Milton Campos está permeada por excelentes advogados. A PUC tem, como a UFMG, grandes expoentes intelectuais, e dedica-se, como ela, à produção acadêmica e aos estudos. Lembre-se, porém, que nenhuma dessas afirmações é uma verdade absoluta: Haverá bons advogados na UFMG bem como acadêmicos na Milton Campos, mas enquanto uma atrai pensadores, a outra prefere contratar juristas, e de maneira geral tenderão às suas tendências.

À margem

duas vocações apertadas na mesma régua.

Desconheço as qualidades das outras faculdades especialistas, sei que, no seu ensino mais prático que filosófico, a Milton Campos tem tido bons resultados de seus ex-alunos em concursos e nas provas da OAB. São, de maneira complexa, vários os advogados destacados formados em qualquer uma delas, já que o bom exercício da profissão parece estar mais bem acompanhado do aluno que se esforça que apenas, de maneira simplista, a esta ou aquela instituição. Os livros adotados são de certa forma universais, e apesar dos alunos da UFMG serem excelentes em repetir o conteúdo fútil do ensino médio (medieval), isso não significa que necessariamente se destacarão no exercício de uma profissão prática, e mesmo nas provas, a incidência de tantos alunos da UFMG, como da Milton Campos, como também de outras várias faculdades passando nos concursos sem a predominância de ninguém nos demonstra que essa vantagem inicial nem sempre culmina nos mesmos formandos excelentes.

A conclusão a que chego, que longe de uma verdade, é um discurso (risos), é que no fim das contas, rankings não interessam a quem faz as coisas direito (não interessam pra ninguém na verdade), faculdades federais não estão mais sozinhas no mundo (excelência pública dos ricos), e a Milton Campos não é a melhor, nem a pior, mas é boa naquilo que faz.

À margem

a lista termina antes do trabalho.

Um pequeno pódio segura a porta aberta de uma sala de leitura; ao fundo, uma mesa de estudo recebe luz e contém um lápis laranja.
Fecho — a classificação acabou segurando a porta.