Sobre um balcão, um copo de gin permanece imóvel enquanto gelo e anis orbitam fora do vidro; uma estrela de anis laranja funciona como pivô.
Abertura — os aromas entraram em órbita antes do primeiro gole.

tremeluzente expressão de misericórdia
cheiros de anis e gin
confusões profusas e mentais
tremo e tremo e tremo como alguém tão ansioso quanto um beija-flor antes de trepar
as batidas cardíacas
aceleradas como o motor biturbo de um McLaren dando largada
vou explodir como um cartucho de pólvora
e voar direto através do seu crânio
explodir seu cérebro e pintar o teto de rosa
vou pintá-lo escrito "Sete Meia Dois"
Vou correr uma meia maratona depois outra meia maratona
por que não uma maratona inteira
porque então não seriam duas
cada epístrofe de energia carbonizada
com invólucro molecular fará metástase
dentro de mim e vai queimar
vai ser carburada a exatos quatrocentos e oitenta e sete graus
vou pegar fogo
em chamas

À margem

o beija-flor entrou na comparação antes da largada.

Um molde de roupa permanece dentro de uma câmara industrial; suas linhas de costura atravessam o vidro, viram estrutura de projeto e alcançam um pequeno sensor laranja.
Pausa — a costura atravessou o forno sem perder a medida.

será possível me ver parindo toda a humanidade lá do
cabo das Tordesilhas
Ícaro vai desabar do céu
por minha causa
vou decolar num foguete em explosão derretendo combustível fóssil
milhões de toneladas de combustível fóssil daqui até outro universo
achar aquele desgraçado Prometeu que entregou o fogo ao homem
e vou pessoalmente comer os abutres que lhe comem os intestinos
e vou comer-lhe os intestinos eu mesmo
a cada dia seus intestinos crescem
a cada dia seus intestinos eu vou comer
carnívoro onipresente sujo com as bocas as papas a garganta o peito de sangue
sangue do sangue de Prometeu que urra de dor
vou devorar-lhe as entranhas todos os dias e sorrir
e atravessá-lo em foguete
arranhar suas costas enquanto meto meu pau mais fundo
e te fodo como merece ser fodida
ansiedade é uma desgraça
essa aceleração desnaturada da carne e dos ossos
vontade de correr de trepar de trabalhar de estudar de fazer tudo num dia
onde não acontece
nada
viver isso todos os dias
é um sacrilégio
e continuamos
vivendo

À margem

Ícaro caiu dentro de outra decolagem.

À margem

a própria voz deu nome à aceleração.

À margem
Uma fita métrica sem números legíveis atravessa uma manivela; as marcas somem na entrada, reaparecem na saída e uma costura laranja assinala o reinício.
À margem

o poema termina sem desligar o motor.

Mesa de estudo, bancada de trabalho e estação de exercício são ligadas por correias e polias; livro, ferramentas e pesos permanecem em seus postos, e uma engrenagem laranja destaca o circuito.
Fecho — tudo girou; só o dia ficou no mesmo lugar.