
Após recente publicação de um texto de outro autor, que, apesar de se parecer com a opinião que detenho agora, não enquadra minha visão completa, muitos criticaram o "apoio ao vandalismo", por isso explicarei a posição de maneira clara.
Não, não me tornei vândalo. Continuarei saindo às ruas em manifesto pacífico e criativo. Continuo condenando a violência, tanto policial como marginal. Ainda creio que a melhor revolução se faz com rapel, barracas e piadas. Com cantos coletivos e novas amizades. Com marchas pacíficas. O novo posicionamento com relação aos vândalos não passa por dizer que o que fazem está certo, mas tentar compreendê-los. Tentar cooptar o que os leva a fazer como fazem, a agir como agem.
Eles não vivem numa torre de marfim. São marginais, sim, no sentido estrito da palavra. Marginais ao sistema, excluídos, perseguidos e agredidos. Os espaços urbanos que hoje depredam são os que são excluídos de frequentar. O que lhes parece o poder: e não estão errados. Os bancos e as indústrias de carros são, sim, parte vasta do poder, principalmente os bancos. Claro que o revendedor de carros não tem nada a ver com isso (apesar de que com relação às depredações de bancos, não sinto uma gota de pena) e claro que a fúria dessa massa de vândalos é tal qual grande, que mesmo alguns pequenos comerciantes foram depredados. Mas principalmente essa parcela excluída da nossa sociedade se move mais por sentimentos e paixões num momento como esse. Eles estão finalmente protegidos! Nós burgueses os protegemos, porque pra atirar neles, é preciso atirar em nós. Pela primeira vez as balas não são balas que matam, mas balas de borracha! Os helicópteros não portam metralhadoras, mas câmeras e luz. Eles se descobriram intocáveis pela agressão do Estado ao se esconder no meio de nós.
E muitas vezes as balas os matam. Os grupos de extermínio da Polícia Militar, a agressividade dos traficantes tocando seus negócios, as forças de operações especiais. Os assassinatos e crimes, que ficam à mercê da lei do traficante. Um submundo de drogas, de muito álcool, de frustrações. Nenhum saneamento básico, nenhum sistema de saúde decente, nenhuma educação que preste. E quando saem dessa Umbra em que vivem, se caminharem nos lugares errados da cidade serão sistematicamente parados por policiais e revistados. E agredidos. Ter armas de fogo apontadas na cara. Serão olhados torto por nós. Atravessaremos a rua.
É essa raiva, é essa revolta que desceu ao meio dos manifestantes. E isso assusta a burguesia. Apavora os burgueses porque tendo estudado em suas boas escolas, têm noção de história e sabem que as melhores revoluções foram feitas com a paz e a criatividade, não com a violência. Conhecemos Luther King e Gandhi e eles nos inspiram a sair de casa. A única agressão que queremos causar é fechar avenidas. Os únicos gritos que queremos dar são expressões da nossa revolta contra o governo. Vivemos na calma, na paz, e ficamos chocados quando esses garotos que vi na quarta-feira indo ao Mineirão, tendo desde 7 a 8 anos (sim) até 20 ou 30, a maioria tendo menos de dezoito, saem irados em destruir e alegres ao depredar. Arrastam suas conquistas no meio de nós com risos na face e se juntam para destruir o que não puderem carregar.
A classe média está apavorada. Saiu às ruas para lutar pela ausência daquilo que eles não sofrem: péssima educação, péssima saúde, nenhuma segurança. Saíram com bandeiras brancas e muita vontade de ajudar os outros, mas se depararam com os verdadeiros oprimidos junto deles. E os oprimidos não querem saber de camisas brancas. Querem, sim, chegar o mais rápido possível às barreiras policiais. Atacar aqueles porcos fardados que lotaram seus pesadelos desde que nasceram. Que os revistam, espancam e mataram seus irmãos. Eles atacam a Polícia em fúria, carregam arsenais de bombas caseiras, fogos de artifício, pesos de chumbo e bolas de bilhar.
A classe média despertou o caos.
Essa é a interpretação, a compreensão do vandalismo solto nas ruas. Como disse desde o início, não vim aqui justificar os atos dessas pessoas, mas compreendê-los. Eles, sem saber, estão destruindo a chance de mudar o que odeiam e amedrontando outros manifestantes, desarticulando e enfraquecendo o movimento que lhes deu vazão. Dão cartas à mídia e à polícia para dizer aos pais que "não deixem seus filhos saírem às ruas". Os atos deles não são bons ao manifesto, não contribuem para derrubar os tais "bancos" e "concessionárias". Exatamente porque tendo um país mais livre, limpo e democrático é que poderemos controlar os abusos do poder econômico. São nossas reivindicações brancas que vêm modificando o ordenamento do Brasil e nos levando a um lugar melhor.

Por tudo isso que falei, tiro agora duas conclusões.
A primeira: não tenham ódio dos vândalos. Não os excluam. Não os reprimam mais do que já foram reprimidos. Usem da compreensão e não caiam no erro de julgá-los exatamente por aquilo que lhes alimenta tanto ódio. Eles também são humanos.
A segunda: precisamos descobrir maneiras de contornar essa situação. Descobrir meios de protesto que dificultem a ação do vandalismo e dos enfrentamentos. Tenho para vocês, leitores, três sugestões: A primeira já acontece e deve ser ampliada, a segunda é esporádica, mas pode ser facilmente organizada e posta em prática. A terceira é ampla.
Primeiro: Assembleias Populares. Sim, já vem ocorrendo uma embaixo do viaduto Santa Teresa. Mas há outros lugares na cidade em que essas assembleias podem ser organizadas em magnitudes diferentes. Criem eventos e chamem seus amigos próximos. Divulguem o quanto puderem, consigam um megafone ou caixa de som e microfone, e falem. Deem palavra a todos nas ruas. Busquem soluções, melhoras, xinguem os defeitos da nação. Dessas assembleias podem surgir abaixo-assinados, cartas aos prefeitos, aos governadores, aos vereadores. Podem surgir novas ideias e novas abordagens. E isso não abre margem à ação do vandalismo.
Segundo: Acampem. Vá pra rua literalmente. Uma barraca no centro custa menos de cinquenta reais; leve suprimentos, um colchão ou saco de dormir. Leve livros, todos os que você tem pra ler, seus instrumentos musicais e ainda, sua voz. Em Belo Horizonte a melhor opção, creio eu, é a Liberdade. Seguro o suficiente e com boa visibilidade. Bons lugares para assembleias e apresentação de teatros improvisados, música e diversão. Não precisam ficar lá pra sempre. Dois ou três dias, uma semana, um mês. O tempo que quiser.
E por fim: Sejam criativos. Sejam maravilhosamente criativos. A criatividade para manifestação é uma das nossas maiores armas. Levar o riso às ruas tira de casa também os mais jovens, as mulheres, os idosos. Dá oportunidade a todos, e não só aos corajosos, de protestarem. Quanto mais formos, mais fortes seremos. Mais impacto causaremos e mais mudança haverá.
Essa revolução que agora acontece no Brasil não deve morrer. Nossa lista de insatisfações ainda é larga e os políticos mal começaram a atender nossas demandas. Não é hora de parar. Não temos tempo pra teorias da conspiração ou lutarmos contra nós mesmos. Precisamos ter foco. Os verdadeiros vândalos trabalham em Brasília, e arrombam dos cofres públicos somas milhares de vezes maiores que os vidros de uma concessionária. Que um banco ITAÚ. São aqueles vândalos que devem nos preocupar.
E estamos preocupados.
E por isso a você que desistiu das manifestações, seja porque há "antipartidarismo" ou "apartidarismo", porque é confuso a mídia ter mudado de lado, por medo da Polícia, dos vândalos e das passeatas.
Volte pras ruas! É de você que precisamos desesperadamente! É o seu ceticismo que ajudará o manifesto a se recompor, a criar novas raízes e se renovar. Pense saídas, descubra meios, faça diferente. Junte-se aos outros e faça diferente. Somos fortes em cada ato, em cada esquina, em cada barraca, em cada voz, em cada pé que marcha aonde for. Somos o sangue que corre a nação. Um povo decidido a traçar seu futuro.
Não deixe que aqueles pobres diabos destruam sua vontade de mudar o Brasil.
Então eu te imploro, te peço, te grito!
#VEMPRARUAVEM
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