Durante a eternidade o ser humano evoluiu em suas crenças, isso é um fato notável. Nossos mais antigos antepassados viviam em tribos, tinham uma linguagem tosca, e acreditavam que os seres mais poderosos do universo eram o Sol, as plantas, o mar, enfim, a natureza... com o tempo eles começaram a usar essas crenças para alimentar suas dúvidas... Por que chove? Por que os animais migram? Por que eu existo? Qual o sentido da vida? Para onde vou quando morrer? Para sanar estas dúvidas, nossos criativos antepassados criaram diversos grupos de deuses, e centenas de histórias, que explicavam, das nossas origens, aos nossos fins.
Com o tempo esses milhões de deuses foram se reduzindo para algumas centenas, dezenas, até que, por algum motivo inexplicável, a humanidade saiu de politeísta para monoteísta.
Mas em todas essas religiões, dos animistas antigos, os gregos, os nórdicos, egípcios, saxões, bretões, chineses, mongóis, cristãos, muçulmanos, judeus, todos eles tentavam separar a vida como numa balança, sendo um lado o bem, e o outro, o mal.
A serpente do Nifhrien, o deus Loki, senhor do Caos, Afrodite, a deusa da beleza e dos conflitos, Diabo, exu, demônio, capeta, coisa ruim... todos eles são explicações das mais diversas culturas, das mais diversas religiões para provar a existência de um “mal” para as pessoas comuns.
Venho aqui lhes contar que descobri, após muito refletir, que todos estes seres retratados por mais de 200 mil anos, não existem e nunca jamais existiram, e após muito pensar, descobri que só existe um grandioso, medonho e tenebroso senhor das trevas, e ele é alguém que nenhum de vocês jamais pensou que poderia ser...
O Cupido.
Sim, ele é retratado entre os cristãos como um anjinho bebê, de cabelos encaracolados e olhos azuis, sorrindo, vestindo uma fralda, com um arco empunhando uma flecha em mãos, mas sua criação vem de bem antes disso. Eros era o filho mais novo de Afrodite, a deusa do amor, e seu arco e suas setas tinham o poder de fazer deuses e mortais se apaixonarem...
Mas como um ser que faz as pessoas se apaixonarem pode ser tão perverso?
Pelo simples fato de que o amor é uma das coisas que mais gera caos em nossas vidas errantes...
Vamos começar pelas questões matemáticas... um jovem, de aproximadamente 14 anos se apaixona por uma garota de sua classe, quais são as probabilidades de ela sequer vir a desconfiar da existência dele? Quais as chances deste pombinho apaixonado vir a criar coragem para começar uma amizade, que resulte num namoro, noivado... e por aí vai?
Suponhamos agora que, num golpe de sorte, nosso pequeno galã tenha um pouco de sorte, e... tharan!! Ele foi vítima de um amor correspondido, algo que, muitas vezes, as pessoas passam a vida inteira sem encontrar, mas ele, no auge dos seus 14 anos, conseguiu, e a garota também está perdidamente apaixonada por ele!
Eles começam a se beijar às escondidas, neste momento existem outros milhares de fatores que podem fazer o amor deles resultar em fracasso. O pai dela pode ser contra o namoro e, ao descobrir, proibi-los de se encontrar, o amor platônico que eles sentiam no começo pode ter diminuido ou até desaparecido, ela pode simplesmente ter se apaixonado por outro, ou decidido que não vai dar certo...
Mas, felizmente, ambos vencem esta fase, alguns meses depois a garota chama o pai para uma conversa, e lhe conta que está namorando, o pai convida o jovem genro para um almoço, e mais uma vez, uma prova matemática... o nosso herói pode vacilar em alguma regra de etiqueta, pode não fazer o tipo que os pais da garota querem para sua filha, qualquer coisa pode acontecer que leve o relacionamento ao fracasso total...
Mas, claro, a roda da fortuna tem uma queda pelo garoto, e o jantar ocorre bem, os pais dela passam a gostar bastante dele, e o namoro começa firme e forte!
Quais são as chances de um relacionamento durar? O amor de ambos pode acabar a qualquer momento... à medida que o relacionamento avança, as brigas se tornam cada vez mais constantes... briguinhas de ciúmes, coisinhas à toa passam a ter cada vez mais importância... se os dois enamorados chegam até esta parte... eles passam por uma prova mais difícil que todas as anteriores, sobreviver a um relacionamento...
Mas nossos heróis vencem mais um obstáculo, e aos 22 anos, a garota arruma as malas e se muda para a casa dele, e ambos declaram que estão noivos.
Viver cada um em sua casa e conviver em pequenas partes do dia com os defeitos do outro é uma coisa, conviver com eles diariamente é outra completamente diferente... ao começar a viver juntos ambos podem simplesmente descobrir que não nasceram para ficar juntos, brigas pelas coisas mais ridículas como levantar a tampa da privada ou deixar a pasta de dentes aberta podem se tornar guerras fenomenais...
Mas, novamente, nossos pombinhos vencem outra dificuldade, e marcam o casamento!
Todos de terno, música tocando ao fundo da igreja, o pai dela segurando seu braço, ele lá no altar, os olhares de ambos se encontram, ela chora, o padre fala os votos, eles repetem, e... “eu os declaro, marido, e mulher, pode beijar a noiva”! Pronto, casados... e agora? Os problemas que já eram grandes agora podem se tornar medonhos, as briguinhas pelas pequenas coisas podem tomar proporções fenomenais, aos poucos ela vai acabar enjoando de sexo, ele vai ficar com barriga de chope, talvez um pouco calvo, aos poucos ela vai perder aquele corpinho dos 20, e lentamente os 2 vão envelhecendo... junto com suas brigas e intrigas.
É importante ressaltar que 80% dos casamentos não duram mais que 5 anos.
A velhice se aproxima do nosso casal, os cabelos vão ficando grisalhos, a voz rouca, os corpos, já não apresentam nem mais uma sombra do que foram na juventude, estrias, celulites, rugas... ele pode ficar rabugento, e ela, sexo? O último foi há anos... as intrigas continuam, mas perderam a importância... ambos passaram por 1, 2, 5, 10, 20, 30, 40, 50 anos de casados! Já possuem 2 ou 3 filhos, já na idade adulta, 10 ou 11 netos, em todas as faixas de idade...
Qual a chance de um relacionamento chegar a este ponto? Quais são as probabilidades de um casal viver para ver seus netos rindo e ralando os joelhos no quintal de casa? Quando o Cupido, com toda a sua inocência, flecha um coração, ele acaba de condená-lo a uma possível vida inteira de provações e provações, disputas, brigas, e lágrimas, mas, alguns diriam, no fim, na velhice, é que as coisas realmente melhoram.
Estão errados.
Depois de uma vida de provações, a tragédia da vida é seu fim trágico... atenção caro leitor, o que eu vou contar agora é o maior spoiler de todos os tempos, o fim de todos os filmes, de todas as vidas humanas, que existiram, existiram, é o fim que todos desejamos, mas ainda assim um fim trágico...
Um garotinho, de 5 ou 6 anos, em toda a sua inocência, pequeno e delicado, olhará para você, e você estará deitado, de olhos fechados e mãos sobre o colo, flores vão se assentar à sua volta, preenchendo o restante do caixão. Um dos seus filhos te olhará de longe, imerso numa dor profunda e amarga, sua filha estará chorando desconsoladamente, enquanto o marido dela e vários outros familiares a consolam, seu filho mais novo vai sair correndo do cômodo, ir para o local mais alto que puder e gritar de dor, a namorada dele irá abraçá-lo e tentar acalmá-lo, e sua mulher... ah, sua mulher... ela lembra do momento em que vocês se conheceram, dos primeiros olhares, os primeiros bilhetes, os primeiros beijos... ela lembra das gafes que você deu no primeiro almoço com os pais dela, lembra das idas ao shopping, dos risos, dos abraços... lembra de quando vocês saíram no meio duma festa, loucos pela bebida, e fizeram amor pela primeira vez, extasiados em completa paixão... lembra da festa de noivado, dos meses que voces moraram juntos, onde faziam sexo em qualquer parte da casa em qualquer momento do dia, rindo e se divertindo... ela vai lembrar de quando entrou na igreja, com o pai ao lado, e olhou nos seus olhos, viu no fundo da sua alma a completa alegria que você sentia, e ficou extasiada pelo momento... sua mulher vai se lembrar da festa do casamento, dos primeiros anos de casados, das dificuldades e das felicidades, vai se lembrar das bodas de 1 ano, de 5, de 10, 20, 25, 40... ah! As de 40... quando você ficou bêbado e dançou sem camisa na mesa da sala! E claro, das últimas, as bodas de 50 anos... maravilhosas, foi uma grande festa, com 800 convidados, todos da família... ela vai se lembrar de tudo isso, e no meio de rios de lágrimas, sua ex-esposa vai sorrir...
Mas e aquele garotinho? Ele está ao pé de seu caixão, e olha seu rosto sereno, que parece dormindo, ele não te conheceu, nunca te viu bêbado, nem irado, nem feliz, nem estressado, nem depressivo, amargo, extasiado... ele desconhece praticamente tudo na sua vida... para ele você é a figura que o pai dele vendeu para ele, o garoto nunca ouviu falar de nenhum defeito seu... para ele, você é, e sempre será, um avô perfeito...
E aquele garotinho ingênuo e inocente, vai chorar pelo vovô, aos pés do seu caixão, metade pelo clima tenso à volta dela, e a outra metade, por um amor verdadeiro e fraterno que ele tem... por você...
Mas você estará deitado, de olhos fechados, irresoluto a tudo aquilo... num sono calmo, como que ignorando todos à sua volta... você estará sem vida...
E depois de tudo que você fez, cada beijo, cada toque, cada ato, grito, vitória, derrota, aumento salarial, boletins da escola, descobertas, traquinagens, festas, estudos e pensamentos, tudo o que vai restar é aquilo... as pessoas que você colecionou durante a vida, chorando à sua volta...
Eu te pergunto...
Valeu a pena?
E te respondo...
Sim, valeu...
A partir do momento que o Cupido desferiu uma flecha em você, 78 anos antes, num pátio do colégio, enquanto você fitava aquela menina bonita, com sorriso doce, do qual você nunca teve coragem de puxar assunto, até o momento em que vocês se separam, seja em qualquer momento de toda esta narrativa, seja no namoro, no noivado, no casamento, ou na morte, você no fundo já sabia que tudo iria acabar em lágrimas, em caos, e mesmo assim foi em frente, ignorando todos os perigos e lutando contra os problemas da vida... e no fim, seu maior medo tornou-se verdade... tudo acabou em caos... a verdade é esta, todo amor já nasce fadado a um fim de lágrimas, mas a questão é, a felicidade está no fim? Ou no processo?
E se você avaliar todos os momentos bons deste romance? Por mais que um casal de jovens termine um namoro em lágrimas, se você pegar todos os momentos bons que eles tiveram juntos durante todo seu namoro, cada beijo, cada toque, cada ato sexual, e subtrair pelas lágrimas do fim, em 90% dos casos você terá um saldo ainda positivo, ou seja, o romance deles ainda assim terá valido a pena...
Então, quando sentir que uma ponta entrar pelas suas costas, com a haste projetando-se por sobre as suas costelas, e você souber que foi atingido pelo maior de todos os demônios, e o melhor de todos os anjos do universo, o Cupido, saiba que no fim, tudo que está reservado para você é nada mais do que trevas, mas é aquilo que você faz entre a flechada e o caos que determinará se realmente valeu a pena tamanho sofrimento...
Compense o sofrimento com a felicidade, em todos os seus aspectos...
...e seja feliz! ;)
Por
Antonio Henrique
