Os limpadores de um automóvel antigo abrem um grande arco numa camada de nuvens sobre o para-brisa, mas atrás dele há apenas vazio marfim; um medalhão fechado pende do retrovisor por um cordão laranja.
Abertura — os limpadores abriram o céu e encontraram papel.

Em qualquer coisa
Como um bote
Em águas dóceis
Navega perdido
Um marujo noviço
Que dos céus
Da noite não tirou
Razão
Entre nuvens entre ventos
Não percebia direção
Com o Cruzeiro tapado
Andrômeda escurecida
Nem lua cheia via
O coitado, coitado
Sentado bebendo lembrava
De portos garotas
Mulheres mulher
Que esteve certa vez com ela
Foi em Cape Town?
Uma garota de cabelos pretos
Olhos pintados profundos
Sorriso gostoso e mãos
Que lhe afagavam o pescoço
Era qual era mesmo
O nome dela?
Nem Helena nem Vera
Qualquer coisa como um
Pássaro tinha o som de pássaro
E quase caiu pra trás
Quando um grande pássaro preto
Enorme
Pousou nas velas do seu barquinho
E piou estridente
Abriu as asas
Com toda envergadura
Uma águia
Sim, uma águia
E numa lufada mais forte de vento,
As nuvens do céu se mexeram
E no leste pôde
O perdido jovem
Atônito marujo observar
A constelação de Áquila
Cortada nos céus
Dourada
E soube então o caminho
De casa
O nome da garota

À margem

o barco se perdeu antes de o mar ficar bravo.

À margem

o céu retirou todos os instrumentos ao mesmo tempo.

À margem
Uma etiqueta de bagagem sem escrita se prolonga num pequeno bocal de apito e é presa por uma argola laranja.
À margem

a resposta pousou antes de receber nome.

À margem

a direção voltou pela abertura que o vento fez.

E com um pássaro
Daquele tamanho no barco
Alguém em qualquer canto gritou

Terra à vista

À margem

a última voz veio de fora do barco — e quase de fora do poema.

Um grande fole preto afasta duas nuvens de papel suspensas; entre elas aparece uma pequena casa de maquete com uma única janela laranja acesa.
Fecho — o vento encontrou primeiro a casa.