Dois metrônomos mecânicos dividem uma base e são ligados por correias cruzadas; os pêndulos inclinam-se em sentidos opostos, e um pequeno pino laranja marca o centro.
Abertura — dois tempos dividiram a base; nenhum assumiu o compasso.

Não está olhando uma
ova
é igual a mim
em cada olhar jogo
sorriso cada
força de expressão
cada jargão
cada gesto
é tão difícil
quanto sou insistente
esses olhos castanhos
puta merda
mas que jogo é esse
meu Deus?
se com outras desistiria
se com outras seria fácil
com ela é no tempo
certo
um devagar gostoso
talvez seja só porque esteja cansada
talvez seja uma conjunção de fatores
não sei
conosco o mundo encaixa as engrenagens
gira como tem de girar
são situações estranhas demais
pra deixar passar
lerdos nos mesmos momentos
espertos demais
inteligentes demais
pra própria segurança dos dois
será que ela me quer?
com que vontade que
voracidade
ela me quer?
me sinto um peixe num anzol
que puxa, puxa
recebe corda
depois perde tudo
só pra começar de novo
e ela não parece querer
me pescar
parece gostar de me deixar cansar
antes de me tirar finalmente da água
e me devorar
meus instintos mandam ter cuidado
minha selvageria, porém,
só puxa mais forte
meu Deus!
que anzol gostoso

À margem

o inventário dos gestos cresce; a certeza, não.

À margem

o tempo certo também precisa ser adivinhado.

À margem

a sintonia ainda não assinou confissão.

À margem

dois espertos demais; nenhuma legenda para os dois.

À margem

a linha cede para continuar tensa.

À margem

o instinto avisa; o verso puxa.

Uma alavanca industrial foi puxada pela própria mola além do batente laranja que deveria detê-la.
Fecho — o aviso continuou no lugar; a mola decidiu atravessá-lo.