Uma campainha de serviço vibra sobre um balcão vazio porque o próprio badalo se transformou em uma sonda de temperatura com marca laranja.
Abertura — ninguém tocou a campainha; o calor chegou primeiro.

Meu deus
olha essa carne que
calor de carne
que sabor meu deus
morde metade
vem comigo
pra saborear
pra sentir
rá rá
vem se entregar
nós dois nessa
picanha maturada
puta que pariu
tem que ser a dois
deus louve a carne
desta bendita vaca
que me deu do teu
sangue aqui nesse
churrasco
não tem tempo ruim
amor
não vou me esquecer
jamais
mas é fácil se perder
numa carne salgada
dessas
olha como dá tesão
estalando na brasa
que amor

À margem

a invocação já vem temperada.

À margem

o riso entra antes de a metáfora escolher corpo.

À margem

desejo e cardápio recusam mesas separadas.

À margem

o sal conserva a ambiguidade.

À margem
Um termômetro se bifurca em diapasão e conserva apenas um pequeno pino laranja na junção.

de Picanha

À margem

o fecho dá nome ao corte, não ao desejo.

Uma prensa de tempero solta grãos de sal que ficam em pé numa sequência de alturas, como um pulso, sob um único ajuste laranja.
Fecho — o sal saiu da prensa já sabendo o ritmo.