Uma pessoa adulta e vestida nivela um espelho; o nível está centralizado, mas apenas o quarto refletido se inclina, enquanto uma pequena cunha laranja sustenta a moldura.
Abertura — o nível garantiu que o problema estava do outro lado.

A faca corta
não em serra
Mas em ponta
Atravessa devagar
Meu peito nu
A faca é cega
É torta e crua
Ela desce e volta
E não vem molhada
não restou sangue
Nada mais bombeia
Os restos escorrem
Num rio que transvasa
Olhos abaixo
gosto azedado de sal
tenho pensado muito
se meu mal é ser fraco
ou se meu mal
É ser mau
tenho olhado a dor que causo
do fracasso e da imobilidade
incutida profunda e vigorosamente
Por muitas pessoas
Que me fizeram muito mal
ou se tenho sido mau
Por egoísmo a outros
e devolvido o mal que
Me foi infligido
Não nos enganemos
O passado mostra que
o fundo do poço pode sempre
ser mais fundo
E a vida mostra que
não tem beiradas
A dor pode durar para sempre ou ainda
Crescer até o insuportável
Ou até mesmo sumir
E nem deixar nada
Nem rastros
Deus joga dados
E cada encontro é aleatório
Cada gota d'água traçará sua trajetória única
Não calculável por números
Ainda que vá terminar
Necessariamente no mar
E no ar
Antes de desabar novamente
E sofrer tudo que se há de sofrer
dessa terra maldita
Que enchemos de sangue e ossos
que enchemos com o mal do mal que nos é incutido
Por agressões não intencionais de todos contra todos
profundamente magoados
por sermos julgados
enquanto julgamos
A humanidade é o mal
se passando por bom
e resumo riscos de uma poesia torta
ilegível
Para imprimir as razões tortas e ilegíveis
Com que reflito nesta ideia dolorosa e irrestritamente real

À margem

o inventário da ferida começou pelo instrumento menos confiável.

À margem
Uma fileira de dominós de carvão cai para a direita enquanto a sombra da última peça retorna e derruba a primeira; uma pequena articulação laranja fecha o circuito.
À margem

a régua trouxe números; a gota trouxe itinerário próprio.

À margem

a margem desta página acaba de negar qualquer envolvimento.

Eu sou o mal? Ou apenas patético?

Mas não somos todos?

Uma pessoa opera uma prensa manual; a folha em branco emerge como uma estrada torta de carvão que atravessa o chão e termina num pequeno mar desenhado em corte arquitetônico.
Fecho — a impressão saiu torta e encontrou o mesmo mar.