Numa gaveta de museu, duas constelações aparecem presas como espécimes; uma delas desapareceu, deixando somente o alfinete e a marca no papel.
Abertura — faltou um exemplar no inventário do céu.

Per un amico

Sou o último de minha espécie
Qualquer coisa que sente
Qualquer coisa que sente vontade
Alguém que mente
Que chora que sofre
Que conta verdades doídas
Retorcidas de memórias frágeis

À margem

uma espécie com um só exemplar.

Perdi um amigo
Alguém que tinha suas próprias vontades
O último de sua espécie
Qualquer coisa que chorava
Que vivia
Que buscava as emoções da vida
Como o garimpeiro cava fundo em busca de ouro
Ele não saiu do próprio buraco

À margem

o fundo não devolveu a saída.

Não são as drogas o perigo
É o vício das sensações
Que nos faz comovidos
Que sussurradas no ouvido
De batidas fortes no ritmo
Do corpo
Da alma
As músicas são o perigo

À margem

a música também foi chamada a depor.

Exemplos errados são o perigo
Céus de fogo
Asas negras
Ritmo frenético de tentações simples
Caligrafia torta
Versos tortos

À margem
Rabisco de pena-tinteiro com uma asa negra; seu traço mistura pulso cardíaco e pauta musical torta.

Somos cada um
O último de nossas espécies
E existe um universo
Em cada um de nós
Perder um amigo é perder
Parte de si
Parte do que te fez cunhado
Da moeda amassada
Velha desgastada

À margem

cunhado: parentesco / moeda. manter os dois.

Um amigo perdido é um irmão perdido
Um filho que se vai
Um amor, um amante
Um alguém que fez de alguém tudo
Hoje não sendo nada
Senão lembranças
E o que resta de cada um de nós
Se não relíquias
Memórias
De uma existência breve, porém
Rica
De aventuras e perigos que corremos
Não são as histórias que contamos?
Não são as histórias que vivemos?

À margem

relíquias ainda têm pulso.

Sobre uma mesa de arquivo, uma moeda amassada e uma pena negra projetam a sombra impossível de duas pessoas correndo lado a lado.
Fecho — as relíquias continuaram contando o que viveram.