Cadeira escolar vazia e mochila avançam sobre uma esteira de cartelas de remédio rumo a uma catraca; a sombra já é de um adulto de terno com carnês.
Abertura — a infância entrou na fila antes de saber o destino.

Anfetamina para as crianças
Álcool para adolescentes
Droga nos jovens
Rivotril aos trinta
Alprazolam na meia-idade
Coquetel molotov ao aposentar
Tubos e tubos e mais tubos
Enfiados da garganta ao cu
Vinte anos de tratamento
Servir de fertilizante
Para uma árvore florida
No cemitério da saudade
prescrito pelo melhor psiquiatra
Recomendado pelos agrônomos da USP
Vamos cultivar reagentes
Para produzir o vírus
Da próxima geração
Um que lhes selecione melhor
E os faça não ter medo de escuro
tomar as decisões corretas
Que são as nossas
E viver a vida
que lhes digo que vivam
Existe um roteiro, veja bem
e é preciso seguir o diretor
Ainda que você não tenha claro
Quem seja o diretor e por que
ele anda de jato e usa terno engomado
E aperta as mãos do governo chinês
enquanto você engole trânsito e gasta trinta por cento
Do salário com drogas
Cinquenta por cento
Pra ter teto
Que não é seu
quarenta
Pelo carro parcelado
parado nesse trânsito
E os outros setenta
Com entretenimento
Da Rede Tupi de televisão
Que é um cado mais de droga
Na verdade
E o extra além dos cem
Paga com juros
em dez vezes no carnê
A escravidão
Redesenhada
Por burocratas e corporativistas
e tenha a vida do script
O tubo de hoje
o adubo do amanhã
Despertador às seis

À margem

a bula chega antes da infância terminar.

À margem

vinte anos: a posologia também sabe contar tempo.

À margem

atenção, leitor: o diretor ainda não apareceu nos créditos.

À margem
Cápsula aberta despeja três carros em fila; o último arrasta uma pequena gravata laranja.
À margem

a matemática pediu licença e entrou sem esperar resposta.

À margem

fim da cena. o roteiro toca de novo às seis.

Galo mecânico de cartelas de remédio e carnês puxa pela gravata uma pessoa da cama em direção à catraca do trabalho.
Fecho — a dose da manhã já sabia o caminho.