Uma grade e um trecho de corrente se desfazem em linhas de planta doméstica enquanto um pequeno cão atravessa em direção à casa.
Abertura — a corrente ficou do lado de fora.

Amigo canino
Aluado lupino
Fiel Aliado
Potente castrado
Rabo cortado
Deixado de lado
Morto e abandonado

Amigo canino
Sangrou acorrentado
Uivou debilitado
Preso engaiolado
Vendido largado
Na rua atropelado

À margem

corrente, grade, asfalto.

Amigo canino
Te salvo resgato
Me lambe me beija
Na cama rasteja
Come bolo e a cereja
Minha carne e meu pão
Minha casa sua casa
Teu lar meu irmão

À margem
Rabisco de um triângulo que tenta virar orelha e casa, acompanhado por marcas de dente e uma trilha incompleta de patas.

Companheiro de horas noturnas
Parceiro em caminhadas diurnas
Chorei outro dia
E você se aninhou
Ao meu lado
Folgado
E mordeu descolado
O controle
Da televisão

À margem

lembrete: esconder o controle antes de dormir.

Destruiu o sofá da sala
As almofadas preferidas
De minha mãe
Comeu meu tênis novo
Roubou meu coração

À margem

o sofá não teve chance.

Quando chego cansado
Aos prantos aos pulos
Latidos desembestados
Me recebe endiabrado
O diabo do cão

Já velho e carente
Cansado e contente
Amigo canino
Se deita bem rente
Ao tapete da sala
E me olha
Comer o pão

Me deixou de repente
O Lupino presente
Ganiu estridente
Na navalha
Do veterinário
Meu amigo
Meu presente

Hoje sento sozinho
No sofá bem na sala
Acendo o cigarro
Me olho
Sem rimas
E olho
Na quina
Do sofá
Pequenas
Marcas
De dentes
Que já não estão aqui mais
O silêncio na casa
Torna presente
A falta
Que você me faz
Amigo canino
Amigo lupino
Amigo
Meu cão

O canto vazio de um sofá guarda pequenas marcas de dentes; uma linha laranja termina antes de alcançar o lugar onde o cão estaria.
Fecho — o sofá ainda guarda a forma.