Num leito hospitalar vazio, um envelope selado está coberto até a aba e recebe uma cânula de oxigênio.
Abertura — desta vez, a carta ficou com a cama.

Se você está lendo estes versos
É porque morri
E o amanhã que é hoje
Outrora, agora
Sou restos enterrados
De tudo o que vivi

À margem

amanhã que é hoje.

Deitado ao berço
Despido em vestes hospitalares
Hão de me drogar
Hão de me entubar
Rabisco essa carta
Aberta ao amor

Aos filhos lhes deixo
A minha ausência
Que lhes criou
E a presença, da falta
Agora que me vou

Aos meus pais, devo desculpas
Poderia ter errado menos
Poderia ter entendido mais
Mas de tolo, eu jovem
Não tive como saber

Amigos, não deixem faltar!
Derrubem, no bar,
Uma cachaça exemplar
Na terra, por mim
Para que estejamos juntos

À margem

comprar uma cachaça exemplar. ninguém especificou a marca.

Amor, guarde consigo
Um pedaço do meu carinho
Veja o filme que eu vi inteirinho
E você dormiu na metade
Aquele filme dos monstros
Você sabe qual é

O tubo percorre a boca,
Garganta, pulmão
Rasga meu coração,
Amarrado na maca,
Estável, instável

Dormirei aqui outra vez
Sem saber se
Alguma outra vez
Acordarei para
Vê-los todos
A vida é cheia de pressas
Mas a morte
Caminha devagar

À margem
Rabisco de envelope cujo tubo hospitalar tenta formar um caracol incompleto, atravessado por um ponteiro solto.

Os que amo, os que prezo.
Os que em oração comigo vão
Sei que rezam por mim
Mas Deus desenha
Caminhos tortos
Por onde passamos retos
Desnorte

Rabisco estes versos
Tremidos, nervosos
De alguém que se prepara
Para dormir
Mas não se prepara
Para acordar

Ps:
Deus entregue esta
Rosa para minha
Neta Ariel
não sei se poderei
Entregá-la pessoalmente

À margem

o P.S. chegou depois do fim.

Um envelope ocupa o vaso sobre a mesa hospitalar, enquanto uma rosa foi guardada na gaveta aberta.
Fecho — o vaso e a gaveta trocaram as entregas.