Um casaco vazio repousa sobre um banco de concreto; suas mangas formam laços de fumaça ligados a um cigarro num cinzeiro, com uma pequena brasa laranja.
Abertura — o frio recebeu um abraço emprestado.

Saí para o vento
quando precisei de um abraço
para fumar e beber
por que saí?
Você não me abraçará, eu sei
já não consigo esperar
o cigarro é um bom amigo
como quem é amigo dum agiota
ele me abraça agora
para me cobrar depois
com juros
enfim é o mesmo que o diabo faz
quando lhe vendemos a alma
preciso do abraço agora
o abraço que você não pode dar
quando saí para o vento
senti frio, e me sentei no concreto
e debaixo duma árvore seca
com gosto de serrado, vi uma flor
um dente-de-leão
e noutros quatro galhos estavam
dentes-de-leão secos, mortos
o que restou era lindo, forte e saudável
sou como aquele dente-de-leão
sozinho agora tenho o sol só para mim
mas preferia antes que fosse um eu
a dividir o sol e ter companhia
abraçado ao cigarro, bêbado
hoje tenho o sol e a chuva e o vento
só para mim
mas preferiria que não fosse

À margem

o abraço veio com vencimento.

À margem

sobrou uma flor onde antes havia companhia.

À margem

tanto céu para um só caule.

Um dente-de-leão se inclina sob um enorme disco de sol, com uma pequena borda laranja; três hastes secas permanecem próximas na rachadura do concreto.
Fecho — todo o sol coube numa ausência de sombra.