Duas poltronas ficam numa varanda à noite; um casaco preto de gala está disposto como se ocupasse uma delas, diante de um copo d'água, outro copo virado e uma brasa laranja de cigarro.
Abertura — a segunda cadeira chegou vestida.

Baseado na música de Simon & Garfunkel

Semi ergo-me na escuridão da noite
com as luzes dos homens clareando a lua
e as sombras da alma iluminando a mente
e nu caminho pela casa vazia.
O corpo quente da cama,
os pés frios na pedra,
o coração terno e pensativo.
Trago um isqueiro para acender
e um cigarro para fumar.
Encho um copo d'água que transborda
Tal qual transbordam meus pensamentos.
Almejo atravessar a biblioteca até a varanda,
mas encontro-me com você.
Veja só, você.
Você me sorri com seus dentes brancos,
e eu te desejo boa noite.
Nos sentamos na poltrona para conversar como velhos amigos.
Somos, na verdade, velhos amigos.
Olhar seus olhos me afobava de medo
você se lembra?
Olhos mais profundos
que o mais profundo dos olhos.
Mas não me amedrontam mais.
Aliás, agora posso inclusive parar para conversar,
antes de sentar-me na varanda
para fumar um cigarro e cantar canções felizes.
Sou grato que tenha me amedrontado,
você amedronta a maioria das pessoas
isso faz bem à maioria delas
pelo menos aquelas que sabem bem o que fazer com o medo.
Você sabe, você é o fim.
As coisas precisam dum fim.
É bom que tenham um fim decente,
mas é correto que sempre tenham um fim.
Decente ou não.
Creio que seriam todos tediosos demais sem você pra dar-lhes um fim.
já são tediosos demais!
veja como repetem.
Vivem todos os dias como se fossem iguais.
Ainda que mudem o que façam, não mudam o que pensam.
Mas você os muda
pelo menos mudou-me
e sou-lhe grato por isso.
Engraçado,
Gosto do modo como conversar com você
é sempre um monólogo.
Não só eu, todos que lhe conversam,
(aqueles que têm coragem de lhe conversar)
conversam por monólogos.
Mas mesmo em monólogo você nos responde.
Sabemos sua resposta sem que você precise mostrá-la.
É que apesar de toda a sua complexidade
E todas as consequências complexas à vida que a sua presença nos traz
você é simples.
Você é tão simples que podemos simplesmente monologar
e ainda assim viver um diálogo.

À margem

um copo cheio demais para uma visita discreta.

À margem

velhos amigos não precisam tocar a campainha.

À margem

o fim aceita poucos elogios sem desconfiar.

À margem

duas poltronas; uma só voz fazendo horas extras.

Entre duas poltronas vazias, o fio de um telefone de disco forma no ar uma fita de Möbius laranja antes de voltar ao próprio aparelho.
Pausa — o diálogo descobriu que ligava para si mesmo.

Ah! Se você soubesse todas as coisas que tenho pra lhe contar!
Vamos para a varanda
Preciso sentir o frio
para sentir-te mais perto de mim.
Levantamo-nos da cadeira e vamos para a varanda.
Vemos as luzes da cidade iluminarem a lua
e pessoas sozinhas amedrontadas caminhando isoladas na madrugada
Um carro passa e uma televisão faz barulho em algum lugar.
Somos só você e eu.
Ofereço-te um cigarro e você o apanha,
Sim, eu sei, é seu drink preferido.
Acendo o meu e olhamos a lua juntos.
Lembra-se de quando eu flertava com você?
Pensava em deixar-me cair nos seus braços
e esquecer todos os problemas do mundo
do meu mundo.
Você ora me respondia que sim
Ora me gritava que não,
mas flertava de volta como uma garota cruel.
Você flertou com todas as pessoas um dia,
sim eu sei.
Mas não,
não se preocupe.
Nunca fui um homem de ter ciúmes.
Ciúmes sempre foram parte dum sentimento chulo
E muitos foram os que caíram nos seus braços por ciúmes.
Sim, eu sei. Não, não serei um deles.
Assopramos a fumaça juntos e bebo um gole d'água.
Passa uma coruja voando e pia.
E sorrio pensando no nosso futuro.
Um dia me casarei com você,
Como todos os outros.
Espero ter uma cama decente
E estar bem vestido para o casamento.
Com minhas melhores roupas,
Sim,
as melhores roupas de minha vida!
E juntos iremos para o altar
Com um reverendo nos conclamando felizes para sempre
E todos aqueles que me conheceram um dia
e fizeram parte dos dias que vivi
chorando por mim.
Quero que a inscrição do nosso casamento
Diga algumas palavras que façam com que os que me amaram
lembrem-se da pessoa que fui
antes de me juntar a você.
Num sonho eterno
(ou será que numa noite sem sonhos?)
Vejo você retirar de suas roupas pretas uma garrafa de Whisky
abre-a e serve dois copos
e no topo da varanda brindamos
você sorri com dentes brancos
E eu dou uma risada abafada
e então brindamos ao nosso futuro casamento.
Contudo não pretendo casar-me cedo, você sabe.
Quero aproveitar meus anos que ainda tenho.
fumar nas noites de lua cheia,
Enamorar algumas garotas belas
e quem sabe eleger uma para passar meus dias
antes de me deitar com você.
Quero deixar umas crianças para se lembrarem de mim
Quando nos formos.
Ter muitos amigos, cometer meus erros duas vezes
só para ter certeza de que os cometi direito.
E quero ter o mundo todo enquanto o tiver.
Ah!
A vida é um gole de Whisky
Forte e amarga
Sei que não será tudo fácil e belo como digo que será
e sei que me deitar com você é como um copo d'água.
Que nos sacia mesmo que não tenha gosto de nada.
Bebemos da água a vida toda
bem como bebemos o Whisky
e na medida em que bebemos o Whisky os gelos derretem
e derretem-se e derretem-se até que no último gole
bebemos da água.
A vida é assim.
Mas há um certo prazer em beber um bom copo de Whisky,
somos alcoólatras
viciados
E bebemos a vida como se cada gole estivesse no final.
e como se cada boca fosse a última
e como se cada noite fosse a última
ainda que todas as noites sejam crianças
e todas as bocas sejam molhadas
Vivemo-las como se nunca mais fosse haver outras.
Somos alcoólatras,
viciados irrecuperáveis.
Dou meu último gole
trago e solto a fumaça
Jogo a bituca do cigarro na rua
e arremesso o copo mais longe.
Você ri, e sei que já vai.
Tem pessoas com quem conversar
e outras com quem flertar.
E eu também já me vou.
Tenho noites para viver
e bocas para gozar.
Espero te encontrar aqui de novo
sei que te encontrarei aqui de novo
até porque você está sempre aqui comigo.
como está sempre com todos os outros.
Dizem que Deus é onipresente,
Dizem, dizem,
mas é mentira.
Deus não é onipresente.
Ele não está sempre lá quando precisamos dele,
Só está lá quando não é necessário
ou ainda quando tudo já deu errado.
A verdadeira onipresente é você
que a cada minuto que passa
está um pouco mais em nós
e a cada vez que pensamos em você
somos modificados por você.
Então te sorrio,
bebo por fim o meu copo d'água
e sem estar mais com você
me vou.
Boa noite,
morte.

À margem

o convidado conhece o bar melhor que o anfitrião.

À margem

aliança desenhada no vapor do copo.

À margem

a metáfora pediu gelo e mudou de assunto.

À margem

o sorriso chegou antes da legenda.

Um casaco preto vazio está pendurado junto à porta da varanda; diante de uma poltrona desocupada ficam um copo d'água vazio, um copo de whisky e um cigarro com pequeno ponto laranja.
Fecho — a visita saiu sem abrir a porta.