Três canais de carvão, água escura e terra convergem sob uma presilha laranja aos pés de um microfone diante de um palco vazio.
Abertura — três cursos chegaram ao mesmo microfone; a sala permaneceu vazia.

A nuvem negra paira
sobrevoa nossa terra
rios de
fogo
sangue
lama
cortam nossa voz
desatam nosso choro
Hades não tem barcos
que atravessem tantas
almas
e faltarão moedas
para pôr-lhes à língua
veja a noite
sem lua nem estrelas
preta
pairar sobre nós
o rio de lama traz sangue
ossos
e cheira a carcaça
o fogo lambe nossas
crianças
que queriam ser
estrelas nas quadras
serão estrelas nos céus
nossa voz seca
quando essa grande
âncora se parte
caída dos céus
e atropelada
morreu caída
morreu queimada
a tempestade
derrete os morros
da alegria
desbarranca casas
e desbarranca
vidas

À margem

fogo, sangue e lama entram no mesmo curso de luto.

À margem

as moedas acabam antes da travessia.

À margem

a imagem sobe ao céu; o luto permanece no chão.

À margem

o verbo desbarrancar alcança as vidas.

Material escuro, cascalho e água atravessam canais separados numa mesa e saem como uma única faixa negra presa por um alfinete laranja.
Pausa — três matérias atravessaram a prensa e saíram como a mesma faixa.

não há moedas
para debaixo da língua
de tantas almas
Hades está
ocupado
de tanta tragédia
de tanta mentira
e no rio que corta
o outro lado
há também lama
morreram os peixes
morreu a terra
que tudo dava
a lama traz sangue
traz ossos
cheira a carniça
requiescat in pace
Boechat
Brumadinho
Urubus
Cariocas
Requiescat in Pace
Brasil
que nessa hora de
dor
você possa ser
forte

À margem

o poema aproxima tragédia e mentira sem explicar a distância.

À margem

o país entra no próprio epitáfio.

Um sino rachado repousa numa bancada; seus fragmentos alinham-se suspensos enquanto o badalo ainda oscila e um mancal laranja permanece preso ao suporte.
Fecho — o badalo ainda oscila; os fragmentos aguardam outra medida.