Quatro bandejas de espécimes são ligadas pelo mesmo rastro escuro; nelas aparecem uma pedra, uma pegada de vaca, uma impressão digital e uma galáxia espiral, com fichas vazias e um clipe laranja.
Abertura — quatro etiquetas aguardam nomes; a matéria passou sem preencher.

Não existe ordem

se te disseram que havia, não há
Tudo que circula os céus está fora de ordem
A entropia é o fim para todas as reações
Você não morrerá
Enquanto ao mesmo tempo não pode estar vivo
Mas a única certeza que tem é a morte
logo que tudo que faz
temendo a morte
É viver tudo o que pode
Ainda que a morte não exista
Nem a vida exista
E tudo seja nada, e nada seja tudo.
Deixe-me esclarecer:

À margem

nota de laboratório: o fim também circula.

À margem

o poema puxou o quadro-negro para perto.

Vê as estrelas? Os astros?
Você não é pequeno
Não pode ser pequeno, pois você é o que olha
São feitos das mesmas peças
A mesma matéria-prima que te circunda circunda-os circunda-lhes
E mesmo você não é você
Você é um fluxo
Pedaços que hoje são você amanhã serão outro
E a vaca que ontem foi vaca hoje é você
E amanhã você será outro.
Mesmo vivo você é um fluxo.
Não há uma vida em você
Você sequer é uma vida
Nós somos uma única vida que gira
Gira para além das cadeias alimentares
Gira para além das forças da Via Láctea
Somos uma vida que circunda o universo
Energia que corre as estrelas e as supernovas
Somos essa coisa inteira, bruta
E se não há metafísica o bastante
Talvez haja outras coisas inteiras como esta
a girar em tempos e espaços para além da nossa percepção
carregando almas perdidas e sonhadoras como qualquer coisa
como nós
que pensam qualquer coisa como nós
E por isso lhe pergunto
Como você pode morrer,
como algum de nós pode morrer!
Quando somos essa coisa toda?
Que está viva ou não está. Está?
Afinal, vida, coisa, nós, galáxias, supernovas
Pedra.
Pedra.
Pedra.
Por que pedra?
São todos nomes que damos às coisas.
Que importa a pedra ser pedra?
Que importa a pedra valer alguma coisa?
Pedra só é pedra porque a chamamos de pedra,
mas que lhe importa ser alguma coisa?
Ela é.
Bem como toda essa coisa girante e monumental
Esse fluxo consanguíneo de energias intergalácticas
Não é vida,
nem é Deus,
Ele é.
E nós somos.
E não importam nomes, codinomes,
Raízes, países,
bandeiras, igrejas ou sobrenomes.
Nós somos.
Todos somos.
Nada mais que somos.
E ainda seremos.
Amém.

À margem

a vaca trocou de crachá com o leitor.

À margem

seta larga demais para caber na margem.

À margem

um triângulo insiste em apontar para o próprio vértice.

À margem

pedra: cargo temporário.

À margem

sem legenda, ela continuou.

À margem

lembrete: comprar pão antes de virar matéria bruta.

Ao lado de uma almofada de carimbo cheia de estrelas, um carimbo sem inscrição deixa no papel a impressão granulada de uma pedra; fichas de nome permanecem vazias e um ponto no cabo é laranja.
Fecho — o carimbo devolveu a pedra sem nome.