Uma grade de ferro se alarga e perde a opacidade até virar uma forma de nuvem em vidro; um parafuso laranja marca a base.
Abertura — a cerca perdeu o céu.

Era uma vez um pássaro.

Saltou do galho. Tinha asas de ouro e refletiam o sol suas penas douradas. Catou uma lufada de vento e subiu aos céus. A liberdade batia-lhe o rosto. O calor esquentava-lhe o corpo. Atravessava nuvens cor de algodão.

Sentia a euforia da vida. Era o que queria ser: Pássaro. Há maravilha mais linda no mundo que ser pássaro? Todos os caminhos são retas, todas as pedras estão longe, toda a vida é uma só majestade.
E era feliz em ser pássaro, por que não seria?

À margem

a altura apagou as pedras.

Não era apenas um pássaro. Era grande, forte e imponente. Majestoso duas vezes. Era o predador dos céus. Falcão. Tinha garras brancas e afiadas. Matava os camundongos apenas de fisgá-los. Tinha bico branco, patas brancas afiadas como navalha. E penas douradas. Que maravilha maior há na vida que ter penas douradas?

De repente avista um ponto no céu. É uma pomba. Encolhe as asas e cai em sua direção em meteoro. É rápido. É belo. É falcão.
Num instante está lá. Agarra-a com as patas, prende-a. É sua a pomba.
Fácil ser predador.

Voa até o chão. Solta a pomba. Com seu bico de navalha estraçalha. Separa. Morde. Engole. Come até os ossos, e não deixa nada.

Então bate as asas e volta pro céu, que é seu lugar.

O falcão mora lá. Ele ama lá. Não há alegria no mundo maior que voar. Não há emoção mais bela que voar. Deus definitivamente era um pássaro, para dar-lhes um canto tão bom no mundo.

À margem

o céu parecia propriedade.

De repente um tiro.
Se assusta, um pato despenca.
Bate as asas n'outra direção, tenta fugir.
Outro tiro.

Acertou sua asa. Despenca do céu. Cai. Cai para a terra, as pedras, a morte. Despenca de seu trono. De seu paraíso vívido, belo. O sol vai ficando mais distante. A terra vai ficando mais perto.

Os segundos se estendem. Pensa em seu ninho. Seus filhotes. É tarde. Todos morrerão. Não há quem os alimente.

Capota. Quebra a asa restante. Quebra os ossos do corpo, os órgãos perfuram. A dor o consome, mas logo some.
Olha uma última vez as nuvens do céu.
E morre.

O homem limpa, olha e sorri.
Vai ser empalhado, um troféu.

À margem

o sorriso veio de baixo.

Uma luneta perde a forma circular, ganha veios de madeira e se curva para baixo até formar um periscópio; um anel laranja permanece junto à lente.
Fecho — o olhar desceu de altura.