Um adulto de costas observa uma esteira de bagagens que leva uma bandeja com prato, taça e guardanapo dobrado; Paris, um avião e o mundo aparecem como linhas de projeto ao fundo.
Abertura — o jantar perdeu a mala e ganhou passagem.

Livre leoa voa
lisos cabelos ruivos
sorriso de sardas fino
desvio de olhar
Vergonha acanhada
fofa invejável
Para vinhos champagne
Pedaços de cordeiro
Porco comida árabe
Todo fim de tarde
um japa
Rissole ou macarrão à bolonhesa do papai
Sabe comer bem
Já foi a Paris
E ao resto do mundo
Rin Tin Tin de aventuras
mas que de Tintim
Leva Jimmy
Que é fofo e faz birra
pra comer
Venho fazer ode
Aos detalhes
Mas que detalhes
Dessas sardas que
Esquecemos de contar
desse sorriso acanhado
cadê meus óculos?
Que dorme como um anjo
acorda como o motor
de um carro velho de 1956
Precisa ligar, esperar esquentar, acelerar devagar
e ainda assim ela vai estar
falando na cama por grunhidos
Antes de formular palavras
Palavras que se movem
nesses lábios
De sorriso acanhado
para formular uma frase
que me derrete todo
E me deixa fraco sem condição
Quando diz que me ama
Me falha o coração

À margem

o olhar também sabe sair de fininho.

À margem

o poema veio com fome.

À margem
Um par de óculos de carvão caminha sobre as próprias hastes e procura ao redor de uma única sarda laranja.
À margem

o idioma da manhã ainda não inventou vogais.

Dois adultos conversam à mesa; no ouvinte, as costuras do paletó e as linhas da cadeira se soltam em traços de construção, enquanto um botão laranja espera o encaixe.
Fecho — a frase pesava pouco; a estrutura discordou.