Dois módulos de sofá encostam suas costas e entrelaçam os zíperes como dedos; uma pequena escada desce sob o assento e a tela ao fundo conserva um ponto laranja.
Abertura — o programa ficou em espera; o sofá continuou a cena.

Para a garota de sardas

Entre pernas
Cruzadas na cama
Corpos colados
Dedos que se amarram
Olhos antes pregados
Num show qualquer
Agora dormem
Cruzamos noites
Outra vez acordo
Antes de você
E te vejo estar
Cerrada nos sonhos
Na paz do seu eu
Admiro seu ser intocado e puro
E vou me pôr fora da cama
Quebrar dois ovos
Fritos mexidos
Tostar torradas com
Manteiga café quentinho
Pães de queijo e
Bolo com calda de chocolate
E venho te acordar
Com cheiro de amor
E de beijo
E te trazer doutro sonho
Para este
Venho te dizer
Que te amo

À margem

o programa ficou do lado de fora do cobertor.

À margem
Dois dedais de carvão se apoiam como se dormissem; seus fios se entrelaçam e terminam juntos num pequeno ponto laranja.
À margem

a manhã saiu da cama na ponta dos pés.

À margem

o despertador trocou o som pelo cheiro.

Em corte arquitetônico, o vapor de uma cafeteira vira escada, atravessa a parede entre cozinha e quarto e termina numa nuvem; um degrau laranja marca a passagem.
Fecho — a manhã atravessou a parede pelo cheiro.