Mulher aproxima um arco de violino da gravata que um homem mantém afrouxada entre os dedos.
Abertura — a gravata descobriu que também tinha cordas.

Dicionário informal
Pelada pra mim
Perdida
Sua calcinha, é claro
E posso ver nos seus olhos
Seus olhos por mim

À margem

dicionário informal.

Vou sorrir sedutor
Cai, cai na minha lábia
Você dirá que sou ator
Cai no golpe quem quer
Já falei que não sou desses
Sou menestrel baixo clero
Toco gaita quebrada
Violão desafinado
Piano sem nota
O único instrumento que eu
Faço um som mesmo
É você e sua xota

À margem
Rabisco de diapasão cujas hastes tentam virar gaita e braço de metrônomo, ligadas por um risco laranja.

Toco, mas toco mesmo
Com língua, com boca e com dedo
É instrumento de sopro
É instrumento de corda
A festa fica quente
E sua pele macia
Vai ficar vermelha ardente
Assim que eu me empolgar

À margem

instrumento de sopro.

Vou compondo sinfonia
A vizinhança escuta aflita
Eu fazendo tu miar
Geme, grita, estala o tapa
Topa puxão de cabelo
Enfio língua, nariz e queixo
Dois dedinhos a girar

À margem

os vizinhos não assinaram participação especial.

De repente você para
Me encara
Olhos pedintes de perdão
Boa menina que é
Pra gozar pede permissão
Mau menino que sou
É claro que digo não

À margem

pede. espera.

A tensão cresce
O desejo cresce
O desejo surta
Você surta
Grita, geme, mia
Vai rugir como leão
Mas obedece
Pede de novo
Outra vez eu digo não

Vai perdendo os sentidos
Já não sente pernas
Não sei onde está
Estou
Plena, serena
Que xupada gostosa
Na sua xota
Rosa, pequena

Goza pra mim

Em erupção vulcão
Raio trovão
Cavalaria em galope
Estrondo
Baderna
Soltem fogos de artifício
É 17 de março
Dia de Santa Gabriela
É Carnaval purpurina
Púrpura pão e sal
E você jorra, molha, escorre
Na minha boca
Molhada de tudo que há
E existe dentro de você

À margem

feriado municipal? confirmar depois.

Estatelada, suada e cansada
me olha
Toda gozadinha
Gata molhada
Eu te sorrio
Pisco belisco
Mordo num canto da coxa
Foi preliminar, bebê
Posso brincar agora
Dentro de você?

À margem

o metrônomo desistiu.

Ao lado de uma cama remexida e vazia, uma meia preta ocupa o lugar do pêndulo de um metrônomo; um diapasão ficou sob o travesseiro.
Fecho — alguém deixou a meia cuidando do tempo.