Quatro estantes musicais formam os cantos de um ringue sobre um palco, ligadas por cordas; há um violoncelo ao lado e um laço laranja em uma estante.
Abertura — o concerto armou seu próprio ringue.

Dedicado a um segredo.

Quando um violino chora, o amor sobe o ar
Mas somente o sax nos faz gozar
E quando o frio de inverno aperta Paris,
Os casais se abraçam, se beijam
Numa enevoada Champs-Élysées
Mas foi o verão de Verona
onde os casais copularam como pombos
que a loucura aconteceu.
E os príncipes, ó que príncipes!
Que cavalgaram com suas princesas nos jardins de Versalhes
Em inocência e amor,
São contraste de Vito Corleone
Que com chapéus, cigarros, pistolas
levaram a ação às ruas de Nova York.
E das lutas de sabre,
aos ringues de boxe,
Do amor,
À paixão.

À margem

o compasso trocou de luvas.

E eis que não há um sem outro
Sem Paris, sem Veneza
Nem Castelos, nem Máfia
Nem Romeu,
Nem Julieta.

Pois aquilo que o amor constrói
A paixão arrasta, com seu fogo de palha
Lambendo os corpos ao torná-los nus,
Comendo os pombos uns aos outros,
ainda crus, e a carne eu hei de louvar.

E são opostos e são juntos, o amor que põe alicerces
A mesma paixão que derruba o circo,
que ela mesma montou e é essa falta de senso
essa loucura oposta
que torna tudo tão cruel e lindo
tão sádico e tão maravilhoso.

À margem

o alicerce também guarda palha.

Veja o violinista que arranha as cordas,
Elas choram e riem e sapateiam.
Num concerto inteiro com mais de cem
tocam juntos, em construção,
Uma democracia de paixão,
E é lindo e belo.
Mas eis Sinatra a levar o amor ao ar,
E cantar versos de perder o ar,
Sob os pés da estátua,
da Liberdade.

À margem

o solo não dispensou a orquestra.

E que saibamos nós que essa música
Essa música não para,
Ela grita, ela geme, ela bebe,
E se arrasta pelos becos inertes,
a apaixonar os feios e belos
Os pobres e os ricos,
Os Capuleto,
E os Montecchinos,
E todo tipo de gente.

À margem

a canção atravessou as portas.

Porque o amor é cego.
Porque o amor é tolo.
E porque, ah!
O amor está no ar!

Um poste de rua termina em uma corneta; uma faixa clara sai dela e atravessa as portas de casas ornamentadas e simples, com uma manivela laranja no poste.
Fecho — a música encontrou passagem de porta em porta.