Uma máquina de escrever sem letras tem pequenos sinos de trompete nas pontas das hastes; uma única tecla laranja aparece entre as teclas vazias.
Abertura — cada tecla quis dizer outra vez.

Falar de amor é
piegas falar de amor
não se pode
falar de amor sem
ser piegas pois
tantos e todos tanto
falam de amor que
não pode mais
que ser
piegas
falar de amor.

À margem

a repetição ainda pediu a palavra.

Mas sentimos tanto
e com tanta força
e sempre, e quanto
que só pode haver tantos
a falar de amor
e dizemos "oh
ninguém sabe bem o que é,
o amor". Mas a verdade é
que não sabe bem
o que é o amor aquele
que ama, pois ao amar
assina o contrato de
os olhos vendar
a razão calar
os ouvidos tapar
e sofre-te e morde-te
como quem sofre e sacode
pelo amor que dói e
dilacera um peito
vil e puro.

À margem

a assinatura fechou mais do que o contrato.

Puro, sim
só pode ser puro pois
todo aquele que
ama é realmente puro e
exatamente por isso
faz tantas bobagens como
uma criança, sim
ora, pois, como uma criança
que é pura e mesmo por
isso judia os cachorrinhos e
os irmãozinhos porque
são puros e pureza significa
agir de qualquer modo estúpido visando
o bem e a boa aventurança sem se
importar se realmente machuca
a quem ama ou que acolhe.

À margem

a boa intenção não tirou a marca.

Por isso amar é
cego e é tolo e é bom
e por isso tanto estamos
a dizermos a nós mesmos
que não sabemos nada
não compreendemos nada
não temos nada
a respeito do amor, pois
só quem não ama
sabe quão estúpidos
são os casais apaixonados e
só quem ama
sabe a beleza que é
estar, e só estar
apaixonado. E amar.

Uma xícara rachada, com a alça partida, aparece inteira no espelho atrás dela; um pequeno fragmento laranja repousa sobre a mesa.
Fecho — a mesma xícara ofereceu duas vistas.