Duas cadeiras vazias ficam frente a frente junto a uma mesa com uma garrafa; uma estrutura semelhante a um batente contorna a cena e tem um trinco laranja no alto.
Abertura — a mesma mesa trouxe uma porta e um trinco.

Ele: "Oh Sal! Se soubesse todas as coisas que eu podia te contar!" (KEROUAC, Jack. On the Road)

Ela: Por que me deprimes com propostas que muito quero mas não posso aceitar?

À margem

o limite entrou na conversa sem metáfora.

Ele: Não pode aceitar?! Tu não ouves o grito dos céus?! Largue a sociedade, só por uma noite!

Ela: Que belo! Dois pesos e duas medidas, lembra?!

À margem

a réplica trouxe a medida de volta.

Ele: Hoje eu quero quebrar a balança.

Ela: Logo amanhece.

Ele: Então veja comigo o amanhecer.

Ela: Quebramos a balança outro dia.

À margem

o outro dia compareceu como contraproposta.

Ele: Não existe outro dia. Tudo que existe no universo, tudo que acontece na humanidade, tudo que tem cheiro, cor e que posso sentir só existe hoje. Depois que eu dormir não vai haver mais nada, só lembranças e a vontade de ter feito. Tu tens toda a minha alma de Kerouac agora, e ela existe infinitamente, eterna e perfeitamente. Qualquer trago que der nela será vício alucinógeno. Foda-se tudo, quero beber whisky.

À margem

o universo inteiro foi convocado para abrir uma garrafa.

Ela: Tudo isso apenas para me tocar?

À margem

a pergunta baixou o teto do discurso.

Ele: Quê?! Como ousa?! Olhe o tamanho dos céus! É tudo muito maior que isso! É tudo grande. Enorme. Veja o mundo! Não é pra te tocar, meu bem, não. É pra tocar as estrelas com nossas almas, eu quero fazer tudo que existe para ser feito antes do amanhecer. Venha comigo.

Ela: Todo esse discurso contra a sociedade em que você tenta escalar só pra me tocar? Digno de um beijo! (risadas)

À margem

a ironia encontrou o atalho.

Ele: Venha comigo! Eu te imploro. Quero abrir esse whisky, e se não o abrir, vou fumar.

Ela: Abra e fume.

Ele: Não tem como você entender, "Oh sal! Se você soubesse todas as coisas que eu poderia te contar!" Eu não vou morrer daqui a 80 anos. Eu vou morrer hoje quando dormir. Posso renascer amanhã e ser outro alguém com outro propósito, mas vou morrer hoje. Não existirá um dia da minha vida que não poderei recomeçar. Quero morrer todos os dias, para poder renascer todos os dias. Porque quando eu nascer de novo verei o sol nascer pela primeira vez, todos os momentos serão belos porque serão únicos.

À margem

a noite recebeu prazo de validade.

Quero ser virgem toda vez que fizer amor. E você será minha primeira paixão. Todas as vezes que te beijar será meu primeiro beijo. E quando desabotoar minha camisa e arranhar meu peito nu, será aquela que lembrarei pro resto da vida. Quero andar por todas as estradas do mundo. Quero olhar do topo de todos os montes. Quero ver colinas e gigantes, quero ser Dom Quixote. E fazer o certo torto, que é o certo mais certo que há. Quero estar com você, e sem você, esse mundo não há.
Venha comigo.
Vamos quebrar a balança.

À margem

o verbo ficou no plural; a decisão, em aberto.

Uma folha contínua e sem inscrições passa por dois rolos sobre uma mesa e retorna em laço por baixo; o eixo do rolo direito é laranja.
Fecho — o dia tentou voltar pela parte de baixo.