Num lugar formal à mesa, garfo e faca estão presos por fitas pretas a um pequeno quadrado suspenso acima do prato vazio; uma fivela é laranja.
Abertura — o chocolate puxou a etiqueta para fora da linha.

Queríamos nós que fosse um mundo
onde os prazeres da carne fossem às pessoas
aquilo pelo que buscassem intermitentemente
vis, sádicas, a copular umas com as outras
arranhando-se nas costas e comendo-se nas entranhas
Por quê?
Porque perdidos vejo vastos rebanhos de tolos
a percorrer caminhos insípidos regrados
desatando-lhes a fúria, desatando-lhes euforia, desatando-lhes...
E atando-lhes arreios, atando-lhes cabrestos, atando-lhes...
limites.
Por que se arreiam os tolos? Por que não se fodem, se beijam, se casam,
deixem que a paixão lhes domine a alma e coma o corpo,
devore o corpo e seja o próprio Deus a invocar-lhes que povoem o mundo
Para que não se castrem, mas se castram, se castram... Os benditos tolos.
Que comessem chocolates para provar o gozo da alma, o rejúbilo!
Que comessem chocolates enquanto se fodessem uns aos outros
E se chupassem suas vergonhas e se casassem com pessoas estranhas.
Queríamos nós que fosse um mundo
de prazer.
Mas por que tão continentes? Por que tão temperantes?
Já que na continência e na temperança moram os maiores hipócritas?
O maior mal do mundo é o ser hipócrita.
Aquele que não é sendo, e é sem não ser.
O que trai o próprio espírito
que trai os desejos da alma e os infortúnios que a paixão lhe traz.
Vivemos num mundo desapaixonado
porque estamos cercados de covardes.
Covardes que negam-se a própria alma
que compararam a mentira irrisória de que somos feitos para um ideal!
ou de que somos seres racionais, razoáveis, razoentos, sapiens, sábios. Sabidos.
Morram-se todos, matem-se todos.
Que se cometam auto-homicídios nessa nova Era de suicidas em que vivemos.
Nesses tempos de hipocrisia, nesses tempos de covardia,
quando o mundo esqueceu-se a si mesmo, de amar,
e o diabo mora nas almas dos temperantes.
Agora tomam sucos naturais, exercitam-se
E levantam bandeiras e arregimentam tropas contra o bacon
Quando antes de enfrentar os exércitos de hipócritas, covardes, tolos
rezaremos uma missa pagã
Rezaremos aos nossos deuses pagãos
e Deus e o diabo se juntarão a nós
pois foram esquecidos pela legião de idiotas
e quando o santíssimo padre subir no altar
proferirá as palavras solenes da nossa revolução
a revolução contra o desânimo do mundo
contra os que esqueceram de foder
de meter, de comer, de gozar, jubilar, e rezar.
O santíssimo padre subirá ao altar,
e proferirá as palavras sagradas da revolução:

À margem

o rebanho trouxe o próprio recibo.

À margem

o cabresto pediu licença e ficou.

À margem

nota de rodapé: ninguém veio pela temperança.

À margem

o mal ganhou crachá de três letras.

À margem

covardia: uniforme um número menor.

À margem

sapiens riscado duas vezes; ainda legível.

À margem

Deus e o diabo ficaram presos no trânsito.

À margem

a solenidade ensaiou com o microfone desligado.

"-Este é o corpo do porco!"
Amém!

Duas luvas formais guardadas sob uma placa transparente atravessam uma à outra e entrelaçam os dedos; um pequeno ponto de costura é laranja.
Fecho — as luvas atravessaram o protocolo sem quebrar o vidro.