Numa pista vazia, uma lançadeira de tear, uma cédula sem texto, uma baqueta e um microfone são unidos por um fio laranja.
Abertura — quatro bastões aguardam o mesmo revezamento.

Não é meu local
de fala
por isso aponto e saúdo

As mulheres que
enquanto os homens estavam
em guerra
trabalharam arduamente
na indústria europeia
e quando esses homens voltaram
querendo seus trabalhos de volta
quebraram tudo

À margem

no manifesto, a fábrica troca de turno; a história finge surpresa.

As mulheres que queimaram sutiãs
As mulheres que marcharam
e enfrentaram homens da polícia
pelo direito de voto

Parabéns às mulheres escravizadas
que trazidas ao Brasil
Deram suor e sangue
pela liberdade
Saúdo Aqualtune
Avó de Zumbi dos Palmares
princesa africana escravizada
que foi resistência

À margem

o manifesto amplia a saudação: da fábrica à escravização.

Louvores às mães de santo
da Umbanda e do Candomblé
Pela garantia de uma
cultura oprimida

À margem

a margem faz espaço para outra frente.

Quero parabenizar
as mulheres trans
que meteram porrada
bruta
na polícia de Nova York
pelo direito de ser mulher

À margem
Um alfinete de segurança aberto atravessa um vão como ponte, preso por um nó laranja.

Saúdo Rita Lee, do cabelo de fogo
Ana Carolina, Gal, Preta Gil, Anitta
Por invadir a música por todos os
lados

Força total às mulheres que
criaram filhos sozinhas
abandonadas
por maridos, pais, irmãos, amigos
e mostram a força que é
ser mulher

À margem

a força aqui não cabe numa biografia só.

Louvores, mulheres de Atenas
Louvores, mulheres de Esparta

A guerra, a luta, o destino
que vos habita
tem um pedaço de cada geração
uma luta brava
em cada ponto da história
que as arrasta num ciclo
de opressão

Vocês são vistas
São lembradas
São louvadas

Essa história não terminou

À margem

ponto-final recusado.

Uma torre de megafones ilumina pegadas que atravessam uma praça e continuam além da moldura; uma delas é laranja.
Fecho — a luz alcançou a praça; as pegadas continuaram.