Um cartão de herbário vazio repousa sobre nervuras de folha transformadas em treliça; uma presilha laranja o prende.
Abertura — a folha ficou no arquivo; as nervuras aprenderam a sustentar o peso.

Uma rosa num jarro
Pode parecer delicada
e bela
mas está sofrendo
podada de suas raízes
alimentada apenas
por água
serve apenas
ao deleite dos olhos
dos outros
logo ela irá murchar
e morrer

À margem

o jarro ficou com a flor; as raízes ficaram fora do quadro.

À margem

a beleza já encontrou plateia antes de encontrar futuro.

Uma rosa na selva
tem espinhos grossos
cresce, multiplica-se
vira uma roseira de
milhões de rosas
coitados daqueles
que ousarem lhes atravessar
hão de sangrar violentamente
suas raízes vão fundo e fortes
são belas orgulhosas
temperamentais
decididas por subir
até o topo da copa e brilhar
não são mais uma roseira
são
a natureza inteira

À margem

a segunda rosa não cabe sozinha por muito tempo.

À margem

o espinho deixa de ser detalhe e passa a decidir a passagem.

À margem

o singular cresceu até ocupar a paisagem.

um dia feliz a todas vocês, rosas
e traço esta ode aos seus espinhos
para que sejam mais fortes e
machuquem mais
para que mãos de homens
não ousem lhes arrancar

À margem

a ode termina mantendo as mãos do lado de fora.

amo vocês

Uma luva branca aproxima-se de uma varanda enquanto uma nova barra ocupa o vão diante dela, presa por um rebite laranja.
Fecho — a mão chegou perto; o desenho da grade ganhou mais uma linha.