Uma esfera terrestre flutua separada da ponta de uma haste, ao lado de uma cadeira vazia atravessada por um eixo; tubos curvos ligam a cadeira a um pedestal com um pequeno clipe laranja.
Abertura — o centro foi parar fora do mundo.

Becos sem saída,
portas que dão em paredes
poços sem fundo
Desertos infinitos,
Pessoas hipócritas,
Cidades solitárias,
sal, areia e calor,
Tudo chega ao fim,
E tudo recomeça,
Mas talvez não
recomece com você
porque talvez
Não sejamos
O centro do universo
Ou talvez nem sejamos
O centro do nosso próprio
Universo ou nem
O centro do mundo redondo.
Ou talvez
Nem a espécie mais
evoluída nem
As pessoas mais
importantes nem,
talvez
sejamos coisa alguma
Já que pra ser alguma coisa
é preciso ser,
e muita gente nem isso é
Eles vão existindo
sem ser, e não fazem
coisa alguma, não
produzem coisa alguma,
não vivem pelos outros,
mas também não vivem por si
apesar de fazerem por si
o tempo todo.
Mas só se destroem.
Só se ferem e se destroem,
e apesar de ser em terceira
pessoa tudo isso serve pra você
bem como serve pra mim
bem como serve pra cada um
e pra humanidade inteira,
Porque como ouvi
em Suprema Felicidade
de Arnaldo Jabor
A vida,
A vida é foda!

À margem

o recomeço esqueceu de reservar lugar.

À margem

o centro saiu do mapa.

À margem

a terceira pessoa voltou o espelho.

Um projetor produz pela lente uma faixa de filme sem imagens, que contorna uma cadeira vazia; um único fotograma tem contorno laranja.
Fecho — o filme continuou em torno da cadeira vazia.