Um ventilador portátil sobre um balcão de azulejos mantém cristais de sal suspensos diante da grade; o botão é laranja.
Abertura — o sal parou diante da grade; o calor continuou.

Veja só
lá vai ela
garota carioca
pele morena
bronzeada
as marcas de sol
do biquíni
brancas
que dão um tesão
do caralho
pisando nessa areia
quente
que até dói o pé
lá vai ela
garota carioca
com sotaque xiado
cantado
que sorri
que em mim até
arde
lá vai ela
garota carioca
bota as mãos no meu peito
me empurra na água
se joga em cima de mim
agarra minhas coisas
com força
morde minha orelha
te chupo salgada
de água do mar
garota carioca
que fecha os olhos
e geme gostoso
quando goza
nessa praia vazia
nesse lugar sem dono
somos nós dois
donos
deste lugar
de voyeur
só pássaros e peixes
sinto o sol queimar
por fora
meu tesão queimar por dentro
e você gemendo
por fora
nos meus ouvidos
abraço
penetro
como
fodo
e gozamos os dois
no meio do nada
que onda foi essa
garota carioca?

À margem

o refrão chega andando, não posando.

À margem

a areia também participa da temperatura.

À margem

o sotaque troca som por combustão.

À margem

a coreografia deixa de ser paisagem.

À margem

a plateia coube em asas e escamas.

À margem

fora e dentro trocam de calor no mesmo verso.

À margem

a última onda é pergunta, não explicação.

Duas correntes de água sobem de ralos separados, cruzam-se numa arruela laranja e param antes de duas torneiras fechadas.
Fecho — a água subiu dos dois ralos e faltou às torneiras.