Por Antonio Henrique
Nos últimos dias, a mídia marrom vem se mostrando bem ativa, desenterrando esse caso que há anos já estava posto de lado. Trata-se do cruel assassinato da pequena garotinha Isabela, que foi cruelmente agredida e assassinada pelo pai e pela madrasta, há 2 anos no apartamento da família.
Houve um intenso uso da perícia na remontagem da cena do crime, e foi um julgamento baseado basicamente em fatos. Penas aparentemente gigantescas foram impostas aos dois, mas na prática, ela só cumprirá 8 anos de reclusão e ele, 10. Ok, até aí tudo tranquilo, mais uma vez a justiça brasileira cumpriu seu trabalho, vagarosa e duvidosa como sempre, mas cumpriu.
O problema do caso todo foi a intensa utilização da mídia desde o começo. Praticamente expuseram toda a vida daquela família em rede nacional, para qualquer um deles, levar uma vida normal agora será praticamente impossível.
Já nos últimos dias, veem-se diversas vezes jornalistas afirmando coisas como “esse caso marca um marco na história da perícia no Brasil.” Um erro em potencial, nossa perícia já é bastante avançada e útil, a questão é que colocar equipes periciais em campo dá trabalho, e os policiais e curiosos que chegam às cenas de crime antes deles, geralmente destroem centenas de provas, por isso, simplesmente não é viável ter perícias em todas as cenas de crimes. Isso demandaria uma verba gigantesca do governo, que consideraria o gasto sem muitos retornos físicos. Talvez, após o caso Nardoni, os órgãos do governo deem uma atenção momentânea às perícias, que logo será esquecida mediante novos problemas.
Outra questão gerada por essa mídia marrom no caso Nardoni foi todo esse movimento de “pedir justiça” feito pela população. Durante todos os 5 dias de julgamento, as ridicularidades beiraram o cômico. Primeiro, aquelas centenas de desocupados, segurando faixas e portando camisas, como se aquilo fosse uma passeata ou uma greve. O que eles acham que aquilo era?
Isso mostra claramente o quão influenciado pela mídia nosso povo é. Se você perguntasse qualquer coisa ali, eles responderiam basicamente o que passou no jornal do dia anterior. Ninguém tinha qualquer tipo de ceticismo com relação ao julgamento, estavam ali apenas porque era legal estar aparentemente “lutando por justiça no Brasil”, como se há duas semanas nós vivêssemos num faroeste, e milagrosamente, após o caso Nardoni, nós tenhamos entrado na era da modernidade legal.
Outro absurdo foi o advogado do casal contando que, num dos dias de julgamento, saiu para almoçar e foi agredido por aquela prole desocupada.
O que o advogado fez demais? É o trabalho dele defender as pessoas que o contratarem, assim como era trabalho do promotor acusar o casal. Todo indivíduo tem direito de defesa, isso significa justiça. Agora, se dependesse daquelas crianças prostradas do lado de fora, pularíamos o julgamento, pegaríamos nossas tochas e executaríamos nós mesmos os dois, com nossas próprias mãos. “Pelo amor de Deus!” Agredir um advogado por fazer seu trabalho é no mínimo um cúmulo do absurdo.
Outra tragédia ridícula ocorrida durante os 5 dias de julgamento foi a “queima de fogos no momento da sentença.” Onde eles pensam que estão? Num estádio de futebol? Guarde seus fogos para a Copa da África, ou os enfie na bunda, arranje outro lugar para usá-los, mas levá-los pra soltar “no final do julgamento da Isabela Nardoni”, é uma retardadice em potencial.
“A justiça foi feita!” É, sim, novamente, os tribunais brasileiros, apesar de lentos, fazem justiça centenas de vezes todos os dias, caso não acredite, dê uma olhada nas nossas penitenciárias, elas estão cheias até o pescoço de pessoas infelizes, que passaram por julgamentos e foram condenadas, com a reação daquela massa acéfala na frente do fórum, dá a entender que nunca antes no Brasil alguma coisa justa aconteceu.
Por último, e mais importante, é interessante observar que desde o começo, a mídia já encarou o casal como “culpado”. Simplesmente voltaram a população toda contra os dois infelizes acusados. Desde o começo eles já eram os vilões da história, não havia possibilidade de que fosse provada a inocência deles, mesmo que eles fossem inocentes, teriam de ser crucificados apenas para a felicidade das massas, caso contrário, bastaria que eles voltassem livres às ruas, e o povo os mataria sem pensar duas vezes.
É interessante ver como a influência da mídia desempenha um papel na sociedade. Nosso povo já está acomodado inútil sem tomar qualquer tipo de atitude há tempos. Não há protestos, revoltas, greves de verdade, não há avanços... as pessoas simplesmente trabalham e vão levando suas pacatas vidas adiante, recheadas de “Big Brother Brasil”, “novelas” e “sessões da tarde”. Apesar disso, bastou toda a mídia voltar a atenção para o caso Nardoni, e uma legião de desocupados foi lá para soltar fogos, gritar por “justiça” e fazer cena. Por que eles não fazem isso quando se fala em educação? Ou talvez quando se comenta sobre corrupção, por que não aparece a mesma legião de idiotas nas portas do Senado, exigindo a cabeça do Sarney e afins?
Nosso povo é estagnado, são todos bonecos marionetes, criados desde a infância nos braços da Rede Globo e SBT, sua cultura toda se baseia em trabalhar de dia, ver novelas à noite, e assistir Faustão e Fantástico no domingo. Nenhum deles usa qualquer tipo de ceticismo, encara qualquer coisa com dúvida. Simplesmente tudo que passar na televisão, é absolutamente verdade. Se no Fantástico passar uma matéria alegando que o Sol na verdade não é amarelo, mas rosa Pink, o céu é verde e Chuck Norris é na verdade gay e emo, ai de quem disser o contrário no dia seguinte, provavelmente vai sofrer o mesmo que o advogado dos Nardoni sofreu, vai ser espancado na rua apenas por defender a ideia contrária ao que a Rede Globo pensa.
Uma coisa que me chamou a atenção foi que a massa, apesar de todo aquele pedido de justiça, no fim das contas não queria justiça, eles queriam vingança.
Eles, perfeitos, imortais, deuses, que nunca erraram em suas vidas, se acham no direito de condenar os outros pelos erros deles, apenas por, aparentemente, os erros desses outros serem maiores.
Quem joga uma lata de Coca-Cola no chão, ou um papel de bala, está cometendo um crime contra a natureza. Quem fecha o vidro no sinal, para aquele garotinho faminto de 7 anos, que só queria ir à escola e brincar com seus amiguinhos, mas está ali morrendo de fome, está cometendo um crime contra todos os valores éticos e morais da sociedade. Quem vê outra pessoa dormindo embaixo de um viaduto, e tem a retardadice mental de considerar isso normal, novamente comete um crime contra os valores éticos da sociedade. Quem sabe dos problemas da África, da questão da Palestina, da situação das favelas nos grandes centros urbanos brasileiros, e não faz nada, não emite opiniões, não ajuda ninguém a não ser a si mesmo, novamente está cometendo lá seus crimes.
Agora, são essas mesmas pessoas que não fazem absolutamente nada pela sociedade, que se consideram praticamente revolucionários, quando pegam suas faixas “Queremos Justiça pela Isabela Nardoni”, no fim das contas qual é essa justiça?
Não há muito o que fazer mediante todas essas absurdidades. A sociedade já está infiltrada demais nos poderes da mídia, para que algo seja feito. O sonho que John Lennon uma vez teve, jamais se tornará real. Somos todos produtos de um sistema, que nos mina e explora cada vez mais, e dia após dia, nós apenas nos condenamos aos nossos próprios erros, e continuamos apenas existindo. Nós nos julgamos cidadãos bonzinhos quando acusamos os outros pelos seus erros, mas inventamos desculpas esfarrapadas quando nos criticam por termos errado.
Se continuar assim, é bom começar a ter medo do futuro, o aquecimento global vem aí, e se tudo depender daquelas crianças com faixas soltando fogos na frente de um tribunal, nós estamos realmente perdidos.
