Numa bancada infantil, uma pista de bolinha está incompleta; uma esfera laranja sobe pelo espaço vazio entre dois segmentos.
Abertura — a tentativa atravessou o pedaço que ainda faltava.

Havia uma garota
Lora serelepe
Uns 9 anos ela tinha
Ou será que eram sete?
Papai lhe ensinou
A empilhar cartas
Faz um triângulo assim, juntando as pontas
Cola mais 4 cartas
Dá uma base
Com uma quinta coringa
De elo
Pra manter os dois triângulos juntos
A menina passou
A tarde toda
Fazia o triângulo
O triângulo caía
Fazia outro
Não dava certo
Quando por fim
Fez os dois triângulos
Não um de cada vez
Mas juntos
E rapidamente
Colocou uma carta por cima
Tirou as mãos devagar
E em choque
Viu que aquilo
Se sustentava
A garota colocou então
Novos triângulos
Fez um trem
Com vários vagões
Então descobriu que
Podia fazer o mesmo que no começo
Colocou dois triângulos lado a lado
E rapidamente
Lhes deu uma quinta carta coringa
E assim foi
A garotinha loira
Montando seu castelinho de cartas
De repente
Eis que senão
A janela entreaberta
Sopra um vento forte
Desses de meio de verão
E como que dominó
O castelo que já tinha cinco andares
Desaba
A garota chora
Seu pai sorri
Sentado no balcão
Tomando taça de vinho
Vai até lá
Senta-se do lado da filha
Coloca um triângulo
De cartas
A filha coloca um segundo
O pai coloca uma carta por cima
Fecha a janela da sala
E pai e filha
Vão montando
O castelo de cartas
Porque é sempre mais fácil
Construir a dois
E com amor
Cada nova camada
Um novo coringa
Cada nova conquista
Dois sorrisos de vitória

À margem

a idade já oscila antes da primeira carta.

À margem

o coringa estreia como peça de engenharia.

À margem

tirar as mãos também é parte da construção.

À margem

o castelo muda de gênero e vira trem no meio da obra.

À margem

o dominó chega ao verso antes de chegar ao chão.

À margem
Dois grampos seguram a mesma haste e compartilham uma única porca-borboleta laranja.
À margem

a tese chega depois que o segundo par de mãos já a demonstrou.

Compartilhados

À margem

o plural fica com o último verso.

Um lápis preto e outro laranja repousam junto às pontas de um arco que se ergue do papel e sustenta um livro; uma cunha laranja ocupa a junção superior.
Fecho — duas linhas descobriram como sustentar peso.