Uma barbearia vazia tem senhas em branco voando pelo corredor; um casaco permanece no gancho com o punho laranja à mostra.
Abertura — as senhas foram embora; o casaco continuou no mesmo gancho.

esperei
sentei num banco
de madeira
de praça
vi gente passando
conversando
nem me notaram
passou um cachorro
me olhou
logo foi embora
passou um pedinte
pediu
lhe dei
agradeceu e se foi
passou uma senhora
sentou no banco comigo
falou no telefone
levantou e foi embora
esperei
passou carro
fechou o sinal
ficou carro
passou carro de novo
quando o sinal abriu
passou janeiro
fevereiro março
abril
veio chuva veio neve
veio domingos de sol
esperei
passou tempo
passou ano
passou tudo que tinha pra passar
passou o dia inteiro
e esperei
vou esperar a vida inteira
pra você chegar
mas quando chegar
meu amor
quanto amor
eu tenho pra
te dar!

À margem

o título reaparece como primeiro gesto.

À margem

o primeiro olhar dura menos que a espera.

À margem

o refrão volta depois de todos saírem do quadro.

À margem
Um dispensador solta uma senha em branco pela abertura superior; ela faz uma curva e retorna por uma segunda abertura abaixo, com a borda laranja.
À margem

só agora a espera admite destinatário.

À margem

o fecho troca duração por quantidade.

Uma porta de elevador aberta revela outras duas portas alinhadas ao fundo; o botão rebaixado é cinza e um pequeno calço laranja segura a porta mais distante.
Fecho — cada porta abriu para outra espera.