Um enorme painel industrial despeja muitos cabos pelo chão; junto de uma pequena luminária apagada, um plugue laranja paira diante da tomada.
Abertura — a usina chegou à sala; faltou um centímetro.

Sangue é uma coisa engraçada
dor, nem tanto
me dá prazer o poder
mas não desejo ele
sobre todos
gostaria de poder
poder ajudar
gostaria de poder
poder para te fazer
gozar
mas não há nenhum
ínfimo mínimo apequenado
desejo
de poder para poder
recursos
são para tornar vasta
a capacidade de todo
e qualquer um
de ser feliz
recursos são minhas letras
que formam palavras
que formam poesias
que tocam seu coração
de que vale uma fortuna
que não serve a um
propósito?
tenho compreendido
as palavras de Cazuza
Ideologia
quero uma pra viver
de que vale
um mundo de possibilidades
que não ache meios
de fazer alguém
feliz?

À margem

o poder entra como sensação antes de entrar como projeto.

À margem

a repetição de “poder” já transformou verbo em recurso.

À margem
Uma ferramenta multifunção abre uma régua lisa, um abridor e uma pequena mão mecânica presa por uma dobradiça laranja.
À margem

a pergunta tirou o propósito do rodapé e pôs no centro.

À margem

Cazuza entra citado; a margem não canta junto.

À margem

o saldo final ainda é uma pergunta.

Blocos tipográficos sem letras formam uma ponte entre duas mãos mecânicas; uma peça laranja paira sobre o último vão.
Fecho — quase todas as peças atravessaram; uma ainda decide o vão.