Quatro bandejas contêm desenhos lineares de um telefone, uma carteira, uma chave e óculos; uma linha preta conecta os quatro desenhos. Uma ficha laranja fica fora das bandejas.
Abertura — o inventário registrou somente o contorno do que não ficou.

Nada
Sou nada
Nem resto sobrou
Não sobrou pedaço
Cortei com aço
De Serra
Sangrou
Fiz desenhos rabiscos extensos
Rasguei da minha carne
Arranquei
Tirei fora
Cada pedaço obsessivo
E errado
Que fui
E perdido nisso
Arranquei inteiro
E me fui
Não sou mais
Pode esquecer
Deixei de ser
O que você pensou que era
Acabou
Já não há
Não há o que falar
Nem dizer nem pensar
Não quero saber
Quer saber?
Já não me importo mais
Tiver que vir venha
Não tiver
Não faço mais questão
De dor
Já não me atormento mais
A dor do corpo
Por sangue que haja
Por fôlego que perca
No grito do berro
Por neurótica compulsiva
Trêmula
Que seja
Nem se compara
À dor das lembranças
E dos pensamentos que tive
Te chocam meus cortes por fora?
Me chocam meus cortes por dentro
Pensar sangra mais
Que essa faca no meu pulso
E foi tanta
Tanto sangue tanta dor
Tanta lembrança torta
Tanta mentira mal contada
Tanta decepção de tanta gente
Com quem eu me importava tanto
E me inspirava tanto
E botava tanta fé
Quantos quadros retratos
Partidos jogados no chão
Coisas rasgadas
Pisoteadas jogadas
Largadas abandonadas
Tantas
Ufa
Foi tanta dor meu bem
Que quer saber
Nenhuma dor
Me impressiona mais
Porque de tudo isso
Trancado na masmorra
Dos doentes
Eu vivi ao lado
De dores
Tão inexoravelmente
Indubitavelmente
Maiores
Mais pesadas
E mais sufocantes
Que as minhas
Dores que deixavam cicatrizes
Na carne
Que pareciam que meus
Rabiscos
Eram de colorir
Vi gente enfeitiçada
Gente amaldiçoada
Gente partida e derrotada
Eles sorriram pra mim
Fizemos piada
E jogamos cartas
Sob a mesa gradeada
E de tantos paus e tantas copas
Tantos ouros e tantas espadas
Misturado nas perfeitas 52 cartas
Nós que somos 53
Loucos tolos que gargalhem
Rasgamos nossas bocas
Com faca e navalha
Do gargalhar
Somos a gangue
Do cabelo verde
Pintamos o rosto
Te encaramos com gosto
E meu irmão
Do meu olhar tenebroso
Você vai afinar
Eu sou a própria loucura
E você vê tanta loucura em mim
Que fica com medo da que
Existe em você
Eu vivi essa minha dor
Eu convivi com essa dor
Dos outros

À margem

a pergunta muda o ritmo sem desfazer a recusa.

À margem

a régua do visível falha aqui.

À margem

o baralho organiza cinquenta e duas cartas; o poema conta cinquenta e três.

Três molduras vazias seguem sobre um carrinho; abaixo delas, três figuras de papel atravessam uma faixa escura, e a roda direita é laranja.
Pausa — as molduras atravessaram a faixa escura sem receber retrato.

E pelo vale de sombras atravessei
E renasci convicto
De que vou fazer por mim mesmo
O que eu tiver que fazer
Que o faça!
Se tiver que inspirar,
Que inspire
Um cara inteligente
Uns anos atrás
Mandou uma palavra séria
Amai-vos uns aos outros
Como ama a si
Mesmo
E em mim
O si mesmo faltou
Fiz por você
Mas por mim já não fiz
Pisamos os dois no prego
E o prego nos seus pés
Tratei cuidei
Passei remédios, coloquei
Bandaid
Conferi dia após dia
Se melhorava
Enquanto isso meu pé sangrou inflamou
Infeccionou gangrenou
Se tornou câncer que se espalhou em veias pretas
Pelos meus pés pela minha perna
Peito, pescoço
Veias negras de câncer do ódio
Pelo corpo todo
Pois odiei a mim
Como tenho odiado tudo
Enquanto vasta esperança coloquei em apenas
Fazer, por você
E agora aqui
Nunca fiz nada por mim
Então me amar
Te digo
É meu novo exercício
Essa aventura doeu
Doeu estupidamente
Teve momentos que
Eu devo dizer
Eu cheguei muito perto
Do fracasso
É bom ter o corpo livre outra vez
Comer com garfo e faca e dormir à hora que quero
Mas a mente realmente livre

À margem

depois das grades e das cartas, o vale muda o tempo verbal.

À margem

a citação encontra justamente a palavra ausente: si.

À margem
Um contador mecânico tem uma alavanca que se curva e pressiona o próprio botão; uma faixa laranja marca o primeiro rolete do visor.

Será que será um dia?

À margem

o corpo recebe uma saída; a mente fica em pergunta.

Duas xícaras ocupam lugares opostos numa mesa; o lugar da esquerda está completo, o da direita tem apenas a xícara. O bico da chaleira aponta para a esquerda e uma gota laranja flutua perto da xícara direita.
Fecho — a gota parou antes de escolher a xícara.