Um relógio de sol se transforma numa placa de terracota rachada; uma lasca laranja aparece na borda.
Abertura — o tempo ganhou rachaduras.

A menina ao sol tem vestido branco.
Seu vestido é curto. Decotado.
Seus cabelos enrolados caem nos peitos excitados.

À margem

o calor abriu a cena.

A menina ao sol tem um picolé.
Chupa-o com vontade, suga todo seu frio.
Lambe-o da base à ponta, e na boca mete-o de sabor vil.

A menina ao sol me encara com olhos puros.
Castos. E cabelos encaracolados atraem minha visão.
Hipnotizam-me. E sorri com sorriso de quem quer diversão.

Há homem que aguente, meu Deus?
Há homem que aguente?
Que será de mim.
Que sou mortal.

À margem

o refrão terminou em mortalidade.

A lateral de um metrônomo de madeira se desfaz num monte de cinza; um rebite laranja permanece na base do pêndulo.
Fecho — o ritmo perdeu a matéria.