Dois adultos sentados frente a frente estendem as mãos para o filamento de uma lâmpada apagada; o fio atravessa o vidro intacto e une os dois gestos num pequeno nó laranja.
Abertura — a lâmpada apagada continuou trocando energia.

Raios de sol raiam
Luz de meditação longa
Trocada a dois
Repenso a energia contida
Em mim e no espaço
Tenho causado impressão
Sofrido impressão
Tenho sido atlas
E cansei de carregar
o mundo nas costas
Me fiz Prometeu
Devolvi o fogo ao homem
Causando ira no Olimpo
Homem que comigo não se importa
Olimpo que devora meu fígado
Todos os dias
E tenho posto as energias à prova
Como tenho apostado a vida
Reconhecer erros é insuficiente
pior, por sentir que fui induzido
fui abusado massacrado e morto
E matei
Por isso me atormentam
As almas negras postas
Do além-mar
Cadavéricas me assolam
Rodopiam e dançam e me fazem
Fogo indígena
A impressão da morte que causei
É o que arrasta o tempero sistemático
Da obsessão que não supero
Para além do físico
Não estou perdoado
Há perdão ao homicídio?
O erro passado assola
os homens não se importam
Com quem lhes deu o fogo
só incendeiam tudo loucos e transformam do palco um circo de chamas
Os deuses sabiam disso
e dei eu o fogo ao homem
de propósito
Não sei se para irritar os deuses
Ou para provar que eu podia
destilei longas palavras
E em tantos discursos de perdão
Contra os obsessores
Deveria eu
pedir perdão ao universo
Pela falta que lhe tive?
E o universo
será capaz de perdoar
quem de fato se arrependa
E queira redenção dos crimes passados?
É quanto imperdoável a vida?
Preciso voltar a ter paz
e deixar essa fase do eu lobo
Mau
De lado
E voltar ao meu eu bom
vejo os raios do sol
vejo o dia clarear no mar
E existem amanhãs
Sobrevivemos sobreviventes
Pacientes lenientes
Alucinados rasgados
Mas sobrevivemos até aqui
cada dia é a vitória de um dia
tomar decisões difíceis
Que lhe marcarão a vida
Em poucos dias
decisões que marcarão as vidas de outros
decisões que farão diferença.

À margem

até a luz deixa impressão.

À margem

o verso pergunta; não presta depoimento.

À margem
Um envelope descreve uma órbita incompleta ao redor de um círculo irregular; um pequeno pino laranja segura a curva.
À margem

uma decisão nunca ocupa só uma cadeira.

Vejo o sol nascer e sou posto na cama
Todos os dias tormento
todos os dias a guerra
Cansado me vou
sem saber quiçá ou que sim
se faço o certo
ou se faço o egoísta

Um adulto gira uma maçaneta; atrás do corte da parede, o mesmo eixo percorre uma rede mecânica e abre várias portas em quartos vazios, unidos por uma arruela laranja.
Fecho — uma maçaneta moveu portas que não estavam no mesmo quarto.