Um piano de brinquedo usa doces quadrados como martelos; um doce paira sobre uma tecla e uma dobra de papel é laranja.
Abertura — o açúcar entrou um compasso antes da noite.

Garrafa de João Daniel
sobre a mesa e
meto-lhe um gole
trago firme do cigarro
que carbura
a fumaça branca espessa
desenha círculos
a garrafa d'água vazia
chacoalho puxo
apita
a cabeça
passam-me
do outro cigarro
carburo
a fumaça mais branca
fumaça
fumaça
fumaça
outro gole
cigarros
conversas risos prosas levianas
novos goles
há moças chegando
sorrio
pedem o fogo
eu jogo
alguém meteu-lhe
uma música
algo que não sei ou
não me recordo
mas o ritmo é bom
passam o cigarro
da fumaça mais branca
enrolado em seda
fumaça que sobe
deem-me um desses
pirulitos por favor
e o brinquedo que o
acompanha
vou jogar granadas
na noite
preciso mastigar
alguma coisa
que não sejam meus dedos
ou minhas bochechas
passa-me esse mel
doce e quadrado
com desenhos de abelha
quero provar da sua
viagem
subimo-los o carro
nossa carruagem
vamo-los para a noite
estamos loucos
e mal começamos

À margem

o primeiro círculo transforma a fumaça em medida de ritmo.

À margem

a terceira repetição já funciona como percussão.

À margem

a chegada cabe inteira no gesto de pedir fogo.

À margem

a música perde o nome; o ritmo permanece suficiente.

À margem

o pirulito abre espaço para um brinquedo sem explicar a troca.

À margem

o quadrado chega desenhado e continua sem nome.

À margem

o carro recebe um nome antigo antes de sair do lugar.

Uma carruagem de brinquedo usa quatro pirulitos espirais como rodas; linhas horizontais cruzam o chão e o cubo central do eixo é laranja.
Fecho — a carruagem ficou; o chão saiu para a noite.