Uma pena toca o dedo de uma mão de porcelana; a impressão digital laranja aparece na pena, não na mão.
Abertura — o toque deixou a impressão no objeto errado.

Tem sentido muito
Sem sentido
Esse sentido que a vida
Dá
Não faz sentido
Uso de sentidos
Para sentir
Tudo que ainda há
Há sensateza
Sensibilidade e destreza
No uso das razões
Sensitivas
Eu sinto seu toque
Cheiro, arranhões e mel
Tenho sentido muito
Às vezes não sinto nada
Sinto só eu neste lugar
Sensação vazia
De falta de carne
Não sentida de mim mesmo
E às vezes sinto tudo
Sinto o meu e o de
Todo mundo
Tanta sensação
Que me falta sensatez
Mas eu sinto
Logo eu existo
E eu existindo
Venho trazer
Para você
Todo o sentimento
Do meu mundo

À margem

o segundo verso já desmente o primeiro.

À margem

“sentido” já ocupa mais cargos do que o poema.

À margem
Um medidor de vidro tem bulbos nas duas pontas e líquido laranja acumulado simultaneamente em ambos.
À margem

o nada entra sem apagar o verbo sentir.

À margem

Descartes reaparece com o tato ligado.

À margem

o mundo termina do lado de quem recebe.

Num console analógico, os deslizadores estão alinhados na parte alta; no mostrador, uma linha reta é marcada por um ponto laranja.
Fecho — os controles subiram; o sinal continuou em silêncio.