Num corredor de serviço, um carrinho de lavanderia guarda um lençol amassado; a ponta que cai sobre a borda se dobra nas páginas de um livro aberto em branco, e uma roda é laranja.
Abertura — o lençol chegou antes da palavra.

Inspirado numa felina que por mais que eu corra foge, e desaparece na escuridão da noite.

Redijo
mas às vezes invejo
os colegas
das outras seis
imagine que belo
o pintor que depois do
amor
saca lápis e papel
e desenha um nu
maravilhoso de você
belíssima
deliciosa
cansada e suada
na cama?
ou o escultor que pode modelar
seus peitos
sua bunda
suas coxas
e torná-las eternas?
o músico que ali
pelado com
instrumento na mão
desenha cordas e acordes
que você será a única
a ouvir?

À margem

a inveja já entrou com estojo próprio.

À margem

o ponto de interrogação ainda está na cama.

À margem

sim, o verso sabe exatamente onde pôs esse instrumento.

para mim,
que redijo
só me resta pedir que se deite
de bruços
e vou escrever esta poesia
nas suas costas
garota
onde venho dizer
que te modelo
te pinto e te canto
antes de escorregar para dentro
com encanto
e com você fazer
arte

À margem

a página mudou de superfície.

À margem

a última palavra assina todas as oficinas.

Um lençol branco atravessa o parapeito de uma varanda; abaixo da barra, suas dobras continuam como drapeado esculpido na fachada, preso por uma presilha laranja.
Fecho — a dobra ganhou pedra sem perder o toque.