Dois manequins sem cabeça vestem um vestido fluido e um smoking aberto; um único zíper une as roupas e tem o cursor laranja suspenso entre os corpos.
Abertura — a distância inteira coube num cursor.

Que queres?
tereis de tudo
tendo a me ter
todo
colocado por inteiro
de garras agarradas
nessa pele macia
deixando marcas
para amanhã
esconder
arranhões confusos
entrelaçados
mordidas nos lugares
alternados
deixando a marca de
um olhar
que ao fechar os olhos
você irá lembrar
dele como do sorriso
cruel e definitivo
que não lhe permite gozar
ainda que implore
arrasta essa alma toda
princesa
num furacão de memória
onde nossos corpos
foram só um
e em minutos longos
você foi só minha
enfeitiçada pela língua
mágica
que lhe tragava a alma
e chupava os beiços
dessa bocetinha rosa
tão rosa quanto suas bochechas
e dois dedos deslizados
fundo
para colher, para cima
para dentro
na altura do clítoris
seu ponto "G"
eu lhe pergunto
aqui?
sua resposta são
gemidos ganidos balidos
e vamos rugidos
amor
de leões na floresta
enfurecidos

À margem

a pergunta ocupa um verso; a resposta, o poema inteiro.

À margem

o amanhã aparece primeiro como lugar de esconder o vestígio.

À margem
Três agulhas de alfaiate atravessam em direções diferentes um pequeno retalho de seda; duas passam por um dedal laranja.
À margem

o ‘ainda’ alonga a demora mesmo diante do pedido.

À margem

os minutos se alongam junto com a ideia de posse.

À margem

a pergunta inicial retorna reduzida a ‘aqui?’.

À margem

o rugido leva o último movimento à escala da floresta.

Dois cintos de segurança vindos de bancos opostos se prendem ao mesmo fecho laranja; acima, uma alavanca com pomo laranja ocupa o espaço entre duas posições.
Fecho — dois cintos, um fecho e nenhuma posição neutra.