O assento de uma cadeira de madeira se prolonga e afunda até formar o casco de uma canoa metálica; um rebite laranja marca a ponta.
Abertura — o assento saiu de viagem.

Fiz poesias, e elas joguei ao vento,
voaram de minhas mãos, chegaram longe.
Aos ouvidos de um velho tolo,
às mãos de uma criança ávida,
aos olhos d'um adolescer irritadiço,
a muitos aqui e acolá.
Não foi nada útil. Nada em que pudesse comer ou se sentar,
nada que houvesse metafísica como era metafísica ao bom Pessoa,
tudo que vendi foram alentos para corações alheios.

À margem

a utilidade ficou sem cadeira.

Espero que o velho tolo tenha se levantado da cadeira,
e corrido ao mundo, para viver como estava vivo.
Imagino a criança ávida crescida, tentando ser um tanto diferente,
tentando levar uma vida nova e sem igual.
Gostaria de ver o adolescer irritado, juntar-se aos revoltados,
e fazer uma revolução no mundo. Trazendo-nos paz e amor.

É assim que é ser poeta.
É arrancar as pessoas de suas mesmices.
É mostrar o mesmo mundo novamente.
É dar a quem sonha, um sonhador,
Algo verdadeiramente grande, nobre e lúcido,
pelo que sonhar.

É tricotar pelas manhãs,
jogar xadrez nas tardes,
dormir de meias

É ver o sol nascer em Xangai
Almoçar em Dubai,
O pôr do sol em Abu Dabi
E a lua cheia em Copacabana.

À margem

o dia coube em quatro cidades.

Pra nadar sob as estrelas, aquém de todo mundo,
Ouvindo Rolling Stones ecoando,
a grandiosidade do Rio.

Ser poeta é assim. É ler, e em leituras viajar por mil galáxias,
desvendar mistérios ao lado de Holmes,
Ajudar Frodo a destruir o anel, gritando a ele suas tolices,
Em Mordor, onde as sombras se deitam.
É estar na mesma tarde em dez mundos indefinidos com Anakin,
E nas galáxias, e no infinito.
É ter viajado o mundo todo,
ainda que tenha viajado apenas de coração, e alma.

À margem

a viagem dispensou bagagem.

Não diria que ser poeta é tarefa fácil.
Mas não há que seja nada grande, e belo, e lúcido, em vida,
que seja fácil.
Se fosse fácil não poderia ser grande, nem belo, nem lúcido,
Pois se fosse belo, ou se fosse lúcido, ou se fosse grande,
Então seria porque nos põe os corações a pensar,
E faz as pernas se moverem,
e leva a lugares onde não imaginávamos conhecer,
e a conhecimentos que não queríamos tragar.

Mas tragamos e ele é belo.
Conhecemos, e ele é lúcido.
Usamo-los, e são grandes.

Por isso venha conosco.
Junte-se a nós. John Lennon, Marley e Bukowski,
Pessoa, Machado e Rolling,
Três vocês, dois de mim e o mundo inteiro.
E as galáxias com todas as suas estrelas.

À margem

a conta incluiu o mundo.

Trazendo o peculiar ao mundo.
Pois é disso que ele precisa.

A parede de uma xícara engrossa e se transforma numa montanha de rocha em camadas; um pequeno grão laranja aparece na base.
Fecho — o mundo coube no cotidiano.