O cabo de um telefone se alarga e ganha a forma rígida de um segundo bocal; um botão na base do aparelho é laranja.
Abertura — a resposta saiu do mesmo fio.

Vamos diminuir a maioridade penal.
Complicado, né?
Diminuir a maioridade.
E o que ganhamos?
Ah! Moleques de 16 poderão ser presos definitivamente.
Como assim?
Pegar penas de 32. Entrar aos 16 e sair aos 48.
Mas só nos acréscimos?
Só nos acréscimos.
E o que é que muda?
Lotamos as penitenciárias.
Mas isso muda alguma coisa?
Claro que muda!
Muda o quê?
Muda o orçamento, que não vai mais pra educação.
Só educação?
Não vai pra hospital, segurança nem educação.
Vai pra onde então?
Pra centro de detenção.
Então por que não corta os gastos com centro de detenção?
Porque o pessoal dos Direitos Humanos não deixa.
E não deixa por quê?
Porque não damos saúde pra mulher cuidar da sexualidade, não damos segurança pro marido cuidar da mulher, não damos escola pro filho da mulher. Já é demais não dar nem uma assistênciazinha pro filho da mulher quando for preso.
Da mãe?
Da mãe.
Você acha?
Acho sim.
E mudar a maioridade ajuda?
Passa a prendê-los mais cedo. Mais gente na cadeia.
Mas não inibe os pobres coitados de cometerem crimes?
Não.
Por que não?
Porque o medo da polícia só dura até a viatura virar a esquina, já a educação não.
O que tem a educação?
Criança bem educada vira sujeito ético, e com polícia ou não, faz a coisa certa.
Então por que não investir na educação?
Taí um negócio que tenho até dó de responder.

À margem

a conta pediu prorrogação.

À margem

o argumento voltou à mesma casa.

À margem

a esquina tinha outro relógio.

Três páginas de um livro aberto se prolongam em abas metálicas arredondadas sobre uma gaveta vazia; uma fita laranja marca o livro.
Fecho — a leitura ganhou outro peso.