Uma televisão de tubo com botão laranja tem o próprio cabo entrando numa tomada desenhada na tela branca.
Abertura — o programa alimentava o aparelho.

Quer se corromper?
Então sente-se, cruze os braços
acenda um cigarro, um trago
tome um copo de dose forte
assista a um capítulo daquela novela das sete
seja da geração saúde e se orgulhe
do seu braço 42 e dos dois copos
de anabolizantes e drogas que toma por dia
para ter seu braço 42
quando desejar um cafezinho
pague por ele e quando quiser um lanchinho
pague por ele e quando quiser qualquer coisa
supérflua e fútil que em nada acrescentará
à sua vida pague por isso assim como
pague por sexo e pague seus impostos
em dia compre das empresas que furam seus olhos
coloque seu dinheiro no banco
fique sentado sem fazer nada tomando
um café e lendo um jornal e emitindo
opiniões sobre como acha injusto
pagar 50% de todo o seu salário
para o governo e receber em troca
a Copa do Mundo
e ser explorado por empresas
que não querem mais que te explorar
e ser explorado por pessoas
que não querem mais que te explorar
e resmungue, e xingue e fique puto
como faço eu aqui agora
já que pra se corromper
basta falar bastante e não fazer nada
falar bastante e não fazer nada
falar bastante e não fazer nada
falar bastante
e não fazer nada
fazer nada
fazer nada
E se você decidisse se mobilizar agora
Até onde iria?
Quantas pessoas juntaria?
Que diferenças faria?

À margem

a novela já tinha lugar marcado.

À margem

até a indignação se acomodou.

À margem

a voz entrou na própria lista.

"Uma grama de ação vale uma tonelada de teoria." - Friedrich Engels

Bocais de megafones cada vez menores se encaixam uns nos outros; uma alça laranja liga o menor à carcaça externa do maior.
Fecho — a fala segurou a própria alça.