Uma mulher de casaco caminha numa rua vazia enquanto o poste de iluminação se dobra e ilumina a própria caixa de fiação aberta; o fecho da caixa é laranja.
Abertura — a rua acende a luz sobre a própria fiação.

Querendo ser estuprada
a mulher sozinha na rua
agora às três da matina
de decote minissaia
Querendo ser estuprada
Batom vermelho
Ela só pode querer
ser estuprada
sozinha na rua assim
às três da matina
que culpa ela tem?

Elas têm.
Culpa de aceitarem uma cultura
que valoriza os valores do homem
os valores do homem
de ser pistoleiro e traçar
todas as cabrochas da noite
os valores dos homens
de tratar
todas como objeto
Elas têm.
Culpa de reproduzir essa cultura
e tentarem ser aceitas
sendo pistoleiras e vendo
em cada homem um objeto
Elas têm.
Têm,
não têm,
Não têm que,
deixar de lado
o salto alto
a minissaia
o decote
batom vermelho
elas têm
têm
que valorizar as qualidades
de mulher
As qualidades de quem ama
que tem sentimentos
que pensa reflete
com sentimentos porque há muito
mais amor no mundo em ser mulher
há muito mais vida no mundo em ser mulher
há um mundo maior em cada mulher
elas matam menos
batem menos
não são violentas porque
por natureza são assim
boas
sentem o que se pode sentir
mas essa cultura
essa cultura torpe diz
que elas têm que parar de sentir
parar de amar
deixar
de ser

À margem

o júri improvisou a calçada.

À margem

objeto examinado: o olhar.

À margem

a conta muda quando a rua se mede.

Uma câmera de segurança instalada numa parede aponta para um espelho circular que devolve a imagem da própria câmera e de sua lente; um pequeno prendedor do cabo é laranja.
Pausa — desta vez, o olhar encontra o próprio olho.

mulheres
e ser pistoleiras e traçar
todos os 'cabrochos' da noite
e tratar
todos os homens
como objetos
Não!
Não têm
que ser assim.
Ser mulher é um exemplo
pra cada homem
um exemplo
de que cada um
é um
e que deve ser respeitado
e que do outro lado existe um outro
um alguém que não quer
ser estuprado
nem nós,
nem elas.
Imagine um mundo
de amor e verás
um mundo delas.

À margem

quem classificou quem?

À margem

margem anotada por uma cidade insone.

E eles?
Eles são uns bastardos
Filhos da puta
cagões
de merda
eles assoviam
buzinam e secam
dissecam
com os olhos a garota
que passa na rua e valoram
a si mesmos por quanta
putaria e sacanagem
fizeram com quem
que nem sequer
deram-se ao trabalho
de guardar os nomes
putões malditos
que precisam aprender a cultura
delas
e não elas
deles
devem eles
sim
aprender a amar e viver o amor e deixar-se amar
num mundo de amor
de sensações de sentimentos
de que lhe adianta
Homem,
toda esta tua racionalidade

À margem

amanhã cedo a rua negará tudo.

Um paquímetro gigantesco mede a largura de uma fachada enquanto uma mulher caminha fora de suas pontas; o parafuso do instrumento é laranja.
Pausa — a medida mudou de objeto.

se não é capaz de ser feliz?
Sendo ser feliz uma sensação
ser feliz
um sentimento de que lhe adianta
o mundo de tecnologias
se não é capaz
de ser feliz?
Trezentos
anos
de revolução industrial
e não foi capaz
de mudar nada
nada
Capaz de mudar nada,
se antes era infeliz
no campo e vivia
seus trinta
hoje é infeliz
na cidade e vive seus
noventa
Quer dizer
somos três
Três!
vezes
mais infelizes!
que o homem do campo
para a cidade
essa foi a grande
contribuição
genialíssima contribuição
dos homens pela humanidade

À margem

seta devolvida ao remetente.

mas não deixava de ser um animal lá
como não deixa de ser um animal aqui
ainda é um porco
que acredita piamente que
uma mulher andando
na rua sozinha é uma
caça.
E se não há olhos,
se não há outros,
se não há perigo
que mal há em dispor
dum objeto perdido
duma mulher
sozinha
pedindo
para
ser
Es
tu
pra
da

À margem

ela segue; o julgamento fica.

Uma mulher
sozinha pedindo
para ser estuprada
Uma mulher sozinha.

Sozinha.

Uma mulher caminha para o espaço aberto e, ao lado, uma única seta vazia se curva até apontar para o parafuso laranja do próprio poste.
Fecho — o julgamento deu a volta e encontrou o próprio suporte.