Num teatro de marionetes vazio, uma cruzeta suspensa sustenta cordas que convergem num nó laranja e continuam até o palco.
Abertura — o palco ficou vazio; as cordas se reuniram num nó.

certa vez uma boneca de pano
dessas
que entendem das coisas
falou a um sabugo pedante
qualquer coisa que assim:
"Uma verdade nada mais é
que uma mentira
bem contada"

À margem

a boneca abre o tratado com uma definição impossível.

Tudo é oculto
o sentido
da vida
escrito numa língua
que já ninguém sabe ler
foi posto em qualquer coisa como livro
e escondido em qualquer coisa
como uma biblioteca
num reino afundado de Atlântida
que ninguém sabe onde está
a verdade
obtusa corda musical
que tem cheiro de dor
e hálito de dragão
paira nos ventos
de outra dimensão
num lugar
onde não ouso alcançar

À margem

a biblioteca afunda antes de o argumento encontrar chão.

À margem
Uma corda musical atravessa a cabeça oca de um martelo de juiz e termina numa pequena cravelha laranja.

tudo que eu já soube
estava errado
tudo que eu sei
nunca será mais que
um achádego
posso estar sonhando
que estou acordado
tanto quanto
posso estar acordado
dormindo
sonhando com algo
lúcido
que almeja ser
não tanto quanto uma verdade

À margem

a margem conferiu: sono e vigília continuam trocando de lugar.

Uma câmera de fole aponta para uma placa vazia; um retângulo laranja aparece na lateral escura do fole.
Pausa — a câmera apontou; a placa permaneceu vazia.

certa vez
eu encontrei uma verdade
não estava fora
como você possa imaginar
estava dentro
eu
que não tenho olfato
pude sentir um sabor
diferente
no ar
é que dentro de mim
havia um fogo
mas havia um fogo
que não sei como
não me incendiou
(ou talvez tenha incendiado?)
o amor é uma verdade
que nos ocorre
mas acontece
como um relâmpago
nos atinge
como um touro
logo a razão
os medos
devaneios e minha velha amiga
a solidão
fazem passar
essa verdade que é o amor
e todas as verdades
que a razão me conta
todos os pânicos
que o medo me faz admitir
todas as masturbações filosóficas vãs
que os devaneios me incutem
todo o vazio imenso
que a solidão me
traz
são verdades de Emília
jamais passarão
ou deixarão de ser
qualquer coisa
que não
mentiras bem contadas

À margem

a verdade sai de Atlântida e muda para a primeira pessoa.

À margem

o parêntese chega quando o fogo já fez a pergunta.

À margem

a filosofia perde a solenidade sem perder o excesso.

À margem

o fecho devolve à mentira a frase inteira.

Quatro painéis acústicos cercam um diapasão laranja; um anel de vibração atravessa as emendas laterais.
Fecho — os painéis fecharam; a vibração passou pela junta.