Uma fileira de alças de metrô pende na mesma direção; uma delas se dobra e prende a si própria com uma fivela laranja.
Abertura — todas seguiram o vagão; uma preferiu segurar a si mesma.

Só, o tempo todo
estou junto comigo
e me faço bem
com os outros
muitas vezes
estou só

À margem

a companhia externa não impede a primeira solidão.

Só, o tempo todo
rabisco comigo
palavras digitais
e crio uma história
do que sou, do que quero ser
com os outros
muitas vezes
a realidade é dura
e as histórias são
clichês

À margem

a página digital acabou de aparecer dentro dela mesma.

À margem

a história encosta no clichê sem abandonar a primeira pessoa.

Só, o tempo todo
vejo as cores mais claras
da realidade
percebo verdades
que não sonha
a vã filosofia
com os outros
muitas vezes
me perco em conversas tolas
e repito meias-verdades
a Deus dará

À margem
O barbante de um telefone de lata sai por uma abertura e retorna à mesma lata, preso por um nó laranja.

Só, o tempo todo
às vezes me bate
um vazio
uma solidão
uma tristeza imensurável
a falta de alguém que valha a pena
com você
muitas vezes
eu sinto um amor imensurável
uma razão de ser e de estar
é como quando estou só
só que com mais alguém

À margem

o “você” atravessa a solidão só no último movimento.

À margem

mais alguém não resolve o paradoxo; passa a habitá-lo.

Dois fones de ouvido completos, cada um com seu arco, encontram-se no centro e ficam voltados um para o outro; os cabos laranja unem-se abaixo.
Fecho — o cabo continuou único; os fones passaram a se encarar.